OS MOVIMENTOS
SOCIAIS 'HOJE':
Como
articular o movimento operário com a multidão.
Alan
Touraine (2007), questionando sobre a aplicabilidade e a definição do conceito
de movimentos sociais nos dias atuais, lança uma pergunta em seu artigo que
iremos considerar como o ponto de partida para o desenvolvimento deste
trabalho:
Podemos ainda falar
em movimento social em sociedades que chamaríamos pós-industriais, às quais
muitos observadores chamam sociedade da informação ou da comunicação? Na
realidade, a resposta a essa questão preside o emprego que os sociólogos devem
ou não fazer da noção de movimento social, no mundo de hoje e em particular em
seus setores economicamente mais modernos. (TOURAINE, 2006, p.6).
Nosso
objetivo é construir o conceito de movimentos sociais a partir da visão da
sociologia e analisar como, na chamada sociedade da informação, os diferentes
movimentos observados na sociedade civil organizada podem ser considerados
sociais.
Também
propomos discutir o conceito de multidão a partir da visão de Negri e Hardt (2005),
traçando uma definição para o conceito e buscando entender como, dentro desta
visão sobre o corpo social, ocorrem os movimentos sociais, ou, como os
movimentos sociais contemporâneos se organizam na multidão, em especial o
movimento operário.
Como
pano de fundo em nossa análise, partiremos da concepção do que é a sociedade da
informação buscando relacionar esses três conceitos: a sociedade da informação
como o espaço, a multidão como o corpo social e os movimentos sociais como os
atores.
As
análises dos diferentes autores sobre o modo de produção capitalista ao longo
do tempo podem ser descritas como unânimes com relação ao fato de afirmarem que
o capitalismo se modifica. Do capitalismo mercantil, passando pelo capitalismo
industrial, podemos dizer que esse modo de produção vive, hoje, um período de
transição. E o que nos permite afirmar isso é a observação da configuração de
um novo regime de acumulação e uma mudança no próprio modo de produção. O
capital ampliou seu domínio, ultrapassou os muros da fábrica e se estende sobre
todo o planeta (Hardt e Negri, 2005).
Nesta
nova forma de organização a informação e o conhecimento passam não só a ser
integrados aos componentes da produção como também se transformam em bens de
consumo final. "A apropriação de informação e de conhecimento não é
exclusiva por natureza, sendo mesmo o contrário: a sua utilização é condição
para multiplicar o seu valor" (Lévy, 2003, p. 379).
Informação
e conhecimento passam a ter um papel definidor não apenas em relação ao
processo produtivo, mas também relacionados à própria forma de estruturação da
sociedade. Se agora esses elementos se transformaram em bens de consumo, como
consumi-los? Como definir esta sociedade que surge no bojo do consumo destes
bens específicos?
Segundo
Albagli e Maciel (2011), as primeiras abordagens nas décadas de 1960-70 que
tratavam da sociedade da informação se focavam nas mudanças relacionadas à
ocupação e ao emprego, ainda não aparecendo o papel da informação, do
conhecimento e do imaterial de forma mais ampla.
A sociedade da informação,
ou do conhecimento, ou ainda a chamada nova economia, é uma nova comunidade
local e global, que tem sua base ancorada nas novas tecnologias de informação e
comunicação (TICs). Sua mais importante atividade econômica baseia-se na
distribuição e manipulação da informação.
Podemos dizer que o conceito
de sociedade da informação procura descrever uma sociedade e uma economia que
sabem usar as tecnologias disponíveis da melhor forma possível, tirando
vantagens destas tecnologias em todos os aspectos relacionados ao seu
cotidiano.
A expressão
'Sociedade da Informação' refere-se a um modo de desenvolvimento social e
econômico, em que a aquisição, armazenamento, processamento, valorização,
transmissão, distribuição e disseminação de informação desempenham um papel
central na atividade econômica, na geração de novos conhecimentos, na criação
de riqueza, na definição da qualidade de vida e satisfação das necessidades dos
cidadãos e das suas práticas culturais. (LEGEY & ALBAGLI, 2000)
A
passagem, ou transformação, para a sociedade da informação pode se realizar a
partir de três fenômenos interrelacionados: a convergência da base tecnológica,
a dinâmica da indústria e o crescimento da internet (Livro verde, 2000). A
sociedade da informação não é um modismo, mas uma mudança profunda nas bases
sociais e econômicas. É um fenômeno de caráter global que se caracteriza pela
transmissão de dados a baixo custo e pela vasta utilização de tecnologias de
armazenamento que permitem à informação circular e se reproduzir numa proporção
nunca antes imaginada. Sua dimensão social reside no fato de que promove a
integração e reduz as distancias entre as pessoas, além de elevar seus níveis
de informação (Livro verde, 2000).
No
prefácio do livro Multidão, Hardt e
Negri nos falam da possibilidade, hoje, da concretização da democracia em
escala global que estaria relacionada ao projeto da multidão, projeto que “não
só expressa o desejo de um mundo de igualdade e liberdade, não apenas exige uma
sociedade global democrática que seja aberta e inclusiva, como proporciona os
meios para alcança-la” (Hardt e Negri, 2005). Mas que multidão é essa?
A
exatidão na circunscrição do espaço em que este conceito se situa é de
primordial importância para diferenciá-lo de outros conceitos próximos e que
possam vir a ser confundidos com ele. A multidão, segundo Hardt e Negri (2005)
não é povo, nem massa, nem classe operária.
O
povo é uno, o que o opõe à multidão, que é múltipla. A massa não se reduz a uma
unidade ou uma identidade, ela é composta de todos os tipos de espécies, mas
engole todas as diferenças. A multidão é formada pela multiplicidade de
orientações singulares e mantem as diferenças sociais existentes em seu
interior, mas estas diferenças internas devem buscar o comum. A classe operária
passou a ser, hoje, um conceito exclusivo composto de dois sentidos: ele tanto
diferencia os trabalhadores dos proprietários como também diferencia a própria
classe operária de outros indivíduos que precisam trabalhar. A multidão, por
sua vez, é um conceito aberto e abrangente. Com relação à identidade, na
multidão esta deveria ser substituída por singularidade, visto que são as
singularidades que irão articular os modos de ser comuns e agrega-los.
Os
autores articulam o conceito de multidão com a possibilidade de concretização
da democracia, como já foi dito, e duas características deixam clara esta
contribuição, a primeira relacionada com seu aspecto econômico e a segunda com
sua organização política. Com relação ao aspecto econômico, a multidão não é
uma identidade nem é uniforme e suas diferenças internas devem leva-la a
descobrir o comum [the common], que,
segundo Negri (2001), deve ser entendido como uma categoria de produção (com
impacto significativo sobre o campo ontológico). O comum não apenas serve de
base para a comunicação, colaboração e cooperação, mas também é produzido por
elas.
Esta produção do
comum tende atualmente a ser central a todas as formas de produção social, por
mais acentuado que seja seu caráter local, constituindo na realidade a
característica básica das novas formas dominantes do trabalho hoje. (Hardt e
Negri, 2005, p.14)
Com
relação ao aspecto político, não esquecendo que ele se une ao social, cultural
e econômico, a contribuição está relacionada à sua forma de organização
democrática, sendo possível observarmos sua mudança de configuração, passando
de comandos centralizados a organizações em rede que deslocam a autoridade para
relações colaborativas (Hardt e Negri, 2005).
Um
aspecto que devemos ressaltar ao falar da multidão usando como referencia a
obra de Hardt e Negri, é que já no prefácio os autores deixam claro que para se
pensar em um projeto político prático que proponha a criação de instituições
democráticas e estruturas sociais, é preciso saber se realmente entendemos o
significado real de democracia hoje. Como nossa proposta de trabalho não é
discutir isso, achamos pertinente apenas apontar que os autores não partem de
uma definição de democracia e apontam que pretendem desenvolver as bases
conceituais para que esse novo projeto democrático possa ser pensado.
Para
que o conceito de multidão possa ser compreendido em sua forma mais geral e
abstrata, Hardt e Negri (2005) o contrastam com o conceito de povo. Eles também
contrastam multidão com turba, massas (mencionada acima) e populacho, mas
iremos nos deter apenas à sua oposição ao conceito de povo.
Como
dissemos, o povo é uno e a multidão é plural e múltipla; o povo, por sua
unidade, pode se constituir em poder soberano e a multidão, por sua
multiplicidade, não pode; as partes que compõem o povo são indiferentes em sua
unidade e se convertem em identidade ao negar suas diferenças. Assim, segundo Hardt
e Negri (2005), as singularidades plurais da multidão contrastam com a unidade
indiferenciada do povo.
De uma perspectiva
socioeconômica, a multidão é o sujeito comum do trabalho, ou seja, a carne real
da produção pós-moderna, e ao mesmo tempo o objeto a partir do qual o capital
coletivo tenta formar o corpo de seu desenvolvimento global. O capital quer
transformar a multidão numa unidade orgânica, assim como o Estado quer
transformá-la num povo. É ai, através das lutas do trabalho, que a verdadeira
figura biopolítica produtiva da multidão começa a surgir. (Hardt e Negri, 2005,
p. 141).
Os
autores explicam que seu foco na multidão pelo aspecto socioeconômico se dá por
conta da falta de atenção que a classe vem recebendo ultimamente e afirmam que
a multidão é um conceito de classe (Hardt e Negri, 2005, p.143). Mas ressaltam
que o conceito também abarca outras linhas de diferenças e hierarquias sociais,
como gênero e raça, por exemplo. Assim, a produção biopolítica, ou formas
contemporâneas de produção, não se relaciona apenas à produção de bens
materiais em sentido econômico restrito, mas também envolve todas as facetas da
vida social.
Segundo
o Dicionário de Ciências Sociais (1987), “Movimentos sociais são as tentativas
coletivas de provocar mudanças, no todo ou em parte, em determinadas
instituições sociais, ou de criar uma nova ordem social”. No século XIX, eram
chamados de movimentos sociais aqueles que tinham como objetivo organizar a
classe operária para que esta pudesse negociar benefícios e vantagens ou
definir seu papel na nova ordem social. O conceito foi ampliado no século XX,
abrangendo outros grupos considerados como minoritários no espaço social.
Ainda
segundo o Dicionário de CS, esses movimentos apresentam uma dupla função, sendo
uma aparente, que se evidencia no recrutamento, nas inovações apresentadas e
nos resultados produzidos. A função de formação de opinião pública e
treinamento de liderança seria a que se desenvolve de forma menos explícita, ou
oculta.
Nas ciências sociais não
existe um consenso sobre o conceito, podendo até mesmo, segundo alguns autores,
coexistirem paradigmas divergentes. Segundo Piccolotto (2007), os autores
estabelecem concepções diferenciadas, indo desde os que trabalham com o modelo
clássico e o norte americano (Alexander, 1998, apud Picolotto, 2007) até os que diferenciam os movimentos sociais
em quatro grandes paradigmas, a saber, marxista, norte-americano, novos
movimentos sociais e latino-americano (Gohn, 2000, apud Picolotto, 2007).
Nossa
proposta é fazer uma breve apresentação nos detendo na concepção clássica
marxista e nas novas interpretações sobre os movimentos sociais, mas não
consideramos como um dos objetivos deste trabalho confrontar essas diferentes
linhas de pensamento e nem discutir as divergências que possam existir.
A
concepção clássica marxista
Segundo Marx e Engels (1986),
“A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a
história das lutas de classes”. As diferentes classes, que podem ser observadas
desde a Antiguidade, sempre conviveram em constante oposição e numa guerra constante,
que terminou ou pela transformação revolucionária de toda a sociedade ou pela
eliminação das classes antagônicas.
No
Manifesto do Partido Comunista (1986), esses autores analisam, de forma breve,
as transformações pelas quais a sociedade passa ao longo de sua existência e
como a burguesia, aos poucos, vai organizando os meios necessários para sua
consolidação e domínio. Mas ao mesmo tempo em que ela cria esses meios permite
o surgimento de uma nova classe que irá antagonizar com ela: o proletariado. Já
em seu nascimento tem início a luta do proletariado com a burguesia. Na
descrição de Marx e Engels sobre a formação da classe operária e partindo da
definição dada no Dicionário de Ciências Sociais, já é possível percebermos uma
descrição do que seria um movimento social, mas devemos ressaltar que no texto
este conceito não aparece.
O
proletariado passa por diferentes estágios de desenvolvimento. A partir de seu nascimento
começa a luta com a burguesia. No princípio a luta é assumida por trabalhadores
individuais, depois pelos operários de uma mesma fábrica, a seguir pelos
operários de um mesmo ramo da indústria, numa dada localidade, contra o burguês
que os explora diretamente. Atacam não os condicionamentos burgueses da
produção, mas os próprios meios de produção; destroem as mercadorias
estrangeiras que lhes fazem concorrência, quebram as máquinas, queimam as
fábricas e procuram reconquistar a posição perdida do artesão da Idade Média. (MARX;
ENGELS, 1986)
Segundo
os autores, nesta fase o que podemos perceber ainda é a luta do proletariado
contra os inimigos da burguesia e não os da classe operária. Mas o
desenvolvimento da indústria gera o aumento do proletariado, o que leva ao seu
fortalecimento, e os conflitos individuais que surgem vão assumindo cada vez
mais o caráter de conflitos de classes.
A
partir daí os trabalhadores começam a formar uniões (sindicatos) contra os
burgueses; atuam em conjunto na defesa dos salários; fundam associações
permanentes que os preparam para esses choques eventuais. Aqui e ali a luta se
transforma em motim. (MARX; ENGELS, 1996)
O pensamento de Marx contribuiu para
a chamada concepção clássica dos movimentos sociais, que privilegia as
interpretações históricas das revoluções. Como foi dito, em seus escritos ele
não usa o conceito de movimentos sociais, mas suas reflexões sobre a
organização da classe operária e suas lutas nos leva a perceber a pertinência
de se apropriar de seu pensamento para compreender e definir as características
deste conceito e explica-lo.
Todos os
movimentos históricos precedentes foram movimentos minoritários, ou em proveito
de minorias. O movimento proletário é o movimento consciente e independente da
imensa maioria, em proveito da imensa maioria. O proletariado, a camada
inferior da nossa sociedade, não pode erguer-se, pôr-se de pé, sem fazer saltar
todos os estratos superpostos que constituem a sociedade oficial. (MARX; ENGELS, 1986)
As
interpretações contemporâneas dos movimentos sociais
Dentre
as novas leituras sobre os movimentos sociais, o paradigma dos Novos Movimentos
Sociais busca ir além da visão clássica marxista, em que as estruturas sociais
se sobrepõem às subjetividades dos atores sociais e ignoram as influencias de
sua cultura e de sua criatividade.
Assim, entende-se
que a ênfase analítica nas determinações das estruturas sociais pode servir
muito bem para explicar por que os movimentos surgem, mas revela-se
incapaz de explicar como eles surgem e se mantém no longo prazo (Gohn,
2000, apud Picolotto, 2007).
Essa
visão está voltada para estabelecer uma análise dos movimentos que surgem a
partir da década de 1960, principalmente na Europa. Dentro desta concepção os
atores sociais passam a ter um papel importante nas ações em detrimento do
papel das estruturas sociais.
Retornando
ao autor que deu a partida para a concepção deste trabalho, Alan Touraine (2006),
propor uma nova definição e análise dos movimentos sociais, de suas
características e interpretações, somente seria pertinente com a inserção de
outros elementos nesta revisão. Ele apresenta duas possibilidades, a primeira
que vê os movimentos sociais mais como uma categoria histórica, e desse modo,
ligada a um tipo de sociedade que foi deixada para trás. Isso ampliaria a sua
definição e sua aplicabilidade não seria mais necessária. Assim, quando ele
utiliza como exemplo a sociedade industrial como um dos tipos de sociedade ligada
aos movimentos sociais, hoje, na sociedade pós-industrial, sociedade da
informação, não caberia mais empregarmos este conceito.
A
segunda possibilidade está na ênfase dada aos fenômenos de globalização que
deslocaram os espaços e os mecanismos de conflito (Touraine, 2006). Assim, os
movimentos sociais que realmente merecem ser estudados são aqueles que:
[...] colocam em
questão os mecanismos de globalização que, em larga medida, não suscitam decisões
semelhantes àquelas adotáveis por uma “classe dirigente”, e não aqueles que se
opõem a categorias sociais no interior de um conjunto político ou territorial
bem determinado. (Touraine, 2006)
Indo além, o autor nos adverte que “É necessário não aplicar a noção de movimentos
sociais a qualquer tipo de ação coletiva, conflito ou iniciativa política”, (Touraine,
2006). Uma interpretação inicial de sua colocação nos leva a entender que o
conceito, de tão usado para explicar qualquer tipo de movimento de caráter
contestatório organizado pelos atores sociais, acabou ficando desgastado e
perdeu seu sentido original. Sua proposta é que:
[..] um movimento
social é a combinação de um conflito com um adversário social organizado e da
referência comum dos dois adversários a um mecanismo cultural sem o qual os
adversários não se enfrentariam, pois poderiam se situar em campos de batalha
ou em domínios de discussão completamente separados – o que impediria, por
definição, tanto o conflito e o enfrentamento quanto o compromisso ou a
resolução de conflito. (Touraine, 2006)
Assim,
ele restringe bem o que seriam movimentos sociais, mas nos diz que não devemos
levar isso de forma muito rígida, pois não necessariamente um conflito social
ou uma ação coletiva precisa estar embasado por uma forte ideologia para que
seja considerado como conflito social. E, por outro lado, ideologias que
recorrem a conflitos significativos na sociedade não são necessariamente
manifestações de movimentos sociais ou antagonismos.
Como
dissemos anteriormente, o paradigma dos Novos Movimentos Sociais privilegia a
figura do ator social em detrimento das estruturas sociais, e Touraine se
coloca deste mesmo modo, pois para ele não podemos falar de movimento social
sem nos colocarmos no ponto de vista dos atores envolvidos no conflito e
conscientes do que tem em comum. Os movimentos sociais devem ser entendidos
como condutas coletivas e não como formas de evolução de um sistema, como foi
posto na concepção clássica marxista.
Um
último autor que gostaríamos de abordar neste tópico é Melucci. Para ele, os
movimentos [sociais] devem ser
entendidos como sistemas de ação, ou seja, deve-se descobrir o sistema de
relações internas e externas que constituem a ação.
Segundo Melucci (1989), na Europa
da década de 1970, autores como Touraine e Habermas atribuíram novas formas de
conflito e formação de novos atores às mudanças ocorridas no capitalismo
pós-industrial. Ele retoma um dos pontos destacados anteriormente neste
trabalho, a saber, que estas teorias baseadas na análise de sistemas dos anos
de 1970 deixam dois problemas sem solução: explicam porque mas não como um
sistema se estabelece e mantem sua estrutura. E que, ao contrário, os
pesquisadores que usam o modelo de mobilização de recursos não percebem na ação
coletiva seu significado e orientação, ou seja, explicam o como mas não o por
que (Melucci, 1989). Sua opção de trabalho seria uma concentração na análise do
como mas sem negligenciar o por quê.
Melucci
coloca que, hoje, os movimentos sociais frutos de conflitos sociais não são
apenas políticos, porque afetam o sistema como um todo, e analisa-los por esta
perspectiva apenas os limitam. No terreno do teórico aponta que o campo dos
movimentos sociais é um dos mais difíceis de ser definido, e suas definições
são mais empíricas do que propriamente conceitos analíticos. Para o autor, um
movimento social, definido analiticamente, é:
Uma forma de ação
coletiva (a) baseada na solidariedade, (b) desenvolvendo um conflito, (c)
rompendo os limites do sistema em que ocorre a ação. Estas dimensões permitem
que os movimentos sociais sejam separados dos outros fenômenos coletivos [...]
que são, com muita frequência, empiricamente associados com movimentos e
protestos. (Melucci, 1989)
Assim,
para Melucci, o que muitas vezes é chamado de movimentos sociais possui uma certa
quantidade destes elementos acima e precisa passar por uma peneira para ser
separado e identificado, e só então poderemos entender o significado de uma
determinada ação coletiva.
A
multidão é múltipla, ou seja, é formada pela multiplicidade que busca o comum.
Mesmo sendo aparentemente antagônica esta afirmativa, o comum aqui é entendido
como aquilo que une os indivíduos em suas diferenças e multiplicidades e não a
produção da homogeneidade. Um olhar por cima poderia enxergar o corpo social de
hoje como um conjunto de práticas sociais e identidades pulverizadas, o que
contradiz a ideia do projeto da multidão. Mas uma visão mais apurada enxergaria
exatamente nesta pulverização a multiplicidade da multidão. A questão que
devemos nos colocar é como essa multiplicidade encontra o comum. Como encontrar
o comum dentro da multidão pela ótica dos movimentos sociais, ou, como pensar o
movimento operário dentro da multidão?
A
sociedade de hoje encontra-se fragmentada e, segundo Cocco (2007), isso é uma
consequência da “[...] crise do mundo industrial e a passagem a um capitalismo
organizado em redes e que agrega valor a partir do conhecimento” (Cocco, 2007).
Essa fragmentação pode ser percebida:
[...] no aumento das
desigualdades, multiplicação dos estatutos do trabalho formal, aumento do
desemprego e do trabalho informal, alternância entre períodos de atividades
aberta e períodos de formação, precarização dos contratos e mais em geral da
proteção social etc. (Cocco, 2007)
Como
consequência desta fragmentação podemos identificar dois movimentos singulares.
O primeiro que aponta para o esfacelamento das formas de representação e da organização
sindical, que pode em certo sentido refletir no declínio dos movimentos sociais
de maneira geral, e, dentro deles, aqueles ligados ao movimento operário. O
segundo, que oriundo do primeiro movimento, não implica nesse esfacelamento,
mas ao contrário, em uma reorganização e redefinição de interesses e
expectativas, com a necessidade de construção de novas formas de organização e
com o uso de novas ferramentas para expressar seus princípios e propósitos
circunscritos aos novos parâmetros que organizam a multidão dentro da sociedade
da informação.
Os movimentos sociais,
segundo Alexander (1998), podem ser vistos como mecanismos sociais que
constroem traduções entre o discurso da sociedade civil e os processos
institucionais específicos de tipo mais particularista. É como dizer que um
movimento social passará a ter significado quando for capaz de interferir nas
atribuições do Estado, por exemplo.
Portanto, o movimento
operário, como uma das expressões dos movimentos sociais, dentro do cenário da
sociedade da informação e no corpo social da multidão, pode ser visto como mais
um dos grupos que formam a multidão e que buscam legitimar sua voz, não podendo
ou devendo, assim, ser confundido com ela.
Como foi exposto
anteriormente, multidão não é classe operária porque esta tanto pode
diferenciar os trabalhadores dos proprietários como também diferenciar a própria
classe operária de outros indivíduos que precisam trabalhar e que não são,
necessariamente, trabalhadores que exerçam algum tipo de trabalho mecânico na
fábrica, como também exclui de seu interior outras formas de trabalho. No pensamento tradicional marxista, a classe
operária, por ser a classe produtiva primordial, estaria sob o controle do
capital e seria o único sujeito capaz de agir com eficácia contra ele. As outras
classes, assim, deveriam se submeter à liderança da classe operária para
empreenderem a luta contra o capital.
A
multidão é “formada por todos aqueles que trabalham sob o domínio do capital,
e, assim, potencialmente como a classe daqueles que recusam o domínio do
capital” (Hardt e Negri, 2005, p. 147). Essa característica da multidão
incorpora em seu interior múltiplos sujeitos sociais: trabalhadores,
desempregados, subempregados, trabalhadores imateriais etc. O trabalho
imaterial é aquele próprio da sociedade da informação e compreende a produção
de bens imateriais, de valores.
Assim, isso implica em uma
revisão desta perspectiva tradicional marxista incluindo agora a classe
operária como um dos agentes sociais, junto aos demais, na busca por
representação de seus interesses, mas não necessariamente como a classe que
lidera todas as outras. Dentro do contexto da multidão, e na nova organização
estrutural da sociedade da informação, se desconstrói a figura da liderança por
um único sujeito e passa-se, então, a uma liderança compartilhada. O meio para
essa liderança democrática é o virtual, a organização em redes. E a multidão,
segundo Hardt e Negri (2005, p. 12), é uma rede aberta e em expansão que
proporciona os meios de convergência para o trabalho e a vivência em comum.
Como
perceber dentro do contexto da multidão a possibilidade de existência de outros
movimentos de luta ou de resistência fundados sobre motivos que não sejam
relacionados diretamente com a questão do trabalho e do capital? Como pensar a
ligação destes movimentos com aqueles relacionados diretamente ao trabalho e ao
capital? Quais são as outras motivações que orbitam ao redor do movimento
operário além das questões relacionadas ao capital e ao trabalho e criam
interfaces entre esses atores e outros movimentos sociais? Quais são as novas
exigências que a sociedade da informação impõe ao movimento operário? Que novos
instrumentos e ferramentas se tornam acessíveis ao movimento operário para que
ele se reestruture em seu campo de ação?
São
muitas as perguntas e poucas as respostas, e não é exatamente aqui, na
conclusão, que estas perguntas deveriam ser lançadas. Mas foi justamente aqui,
ao final, que elas se tornaram mais evidentes. No decorrer das leituras para este
trabalho inúmeros questionamentos foram feitos, muitos nem chegando a ser
incluídos. Algumas destas respostas são as que procurarei responder no decorrer
do desenvolvimento da minha tese, mas certas constatações já foram feitas, e
algumas questões devem ser respondidas.
Na
sociedade da informação, o uso das TICs é uma realidade, seja nas organizações
produtivas, administrativas, na gerência do Estado ou na vida diária. E com relação aos movimentos sociais não é
diferente:
Movimentos sociais
fazem uso da internet na contemporaneidade de diversas formas: para divulgar
causas, angariar novos adeptos, organizar protestos online e offline, coletar
assinaturas para petições, dentre diversos – e criativos – outros usos. A primeira
experiência geralmente referida em artigos acadêmicos de ativismo na internet foi
a dos mexicanos do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em 1994. Como
relatam Pimenta e Rivelo (2008), o movimento de indígenas zapatistas enviava comunicados
a jornais e rádios para informar sobre o levante por direitos básicos que organizavam
na região de Chiapas. O protesto reivindicava direitos locais ao mesmo tempo em
que apresentava uma pauta universal, que era a denúncia das contradições do capitalismo.
As declarações dos zapatistas passaram a ser replicadas na internet, em sites e
em e-mails, e culminaram com a formação de uma rede de solidariedade de movimentos
sociais de diversos países. (Lara, 2011)
Com o advento das interfaces
amigáveis e a mobilidade do uso e acesso à internet, podemos identificar que os
movimentos sociais passam a utilizar estas ferramentas como forma de atuação
política, não só para convocar integrantes do movimento, mas também como forma
de propaganda e de sedução de novos participantes.
Não devemos esquecer também
das possibilidades infinitas de visibilidade que estes movimentos passam a ter.
Quem tem um perfil público no Facebook, por exemplo, pode verificar como ele é
usado para mobilizar os indivíduos em torno de uma causa, seja esta causa de
abrangência particular (pedido de doação de sangue para um paciente específico)
ou ampla (convocação para a marcha contra a corrupção, ou apoio a greve dos
bombeiros no RJ). E não necessariamente quem convoca é o usuário comum, pois
muitos movimentos sociais possuem páginas públicas.
Segundo Cocco (2007), existe realmente uma crise
das massas operárias organizadas em partidos e sindicatos, e podemos ir além e
relacionar esta crise à própria identidade dos diferentes grupos organizados na
sociedade. Creio que devemos postular
que as transformações que sucederam as sociedades industriais ainda se fazem
como movimento e não permitem identificar modelos determinantes de estruturas
mais estáveis que aglutinem os atores sociais, como até então ocorria.
Apropriar-se de uma nova lógica de mudança constante talvez seja o novo desafio
do movimento operário e, quem sabe, dos demais atores dos movimentos sociais,
que, de certo modo, está alinhado com o que Cocco identifica como a
fragmentação da sociedade, que falamos acima. Segundo ele:
Mas assistimos também a uma multiplicação de movimentos que foram e são
capazes de articular pelo avesso essa fragmentação: desde as grandes
manifestações para a democratização da globalização (o ciclo que começou em
Seattle, passou por Genova e chegou até Rostock, nesse verão europeu); o
movimento pela paz, que mobilizou a multidão em todas as cidades do mundo
contra a guerra do Iraque; as mobilizações dos migrantes, as mais importantes
tendo sido aquelas dos ilegais – muito deles latinos – nos Estados Unidos; a
participação das populações indígenas nos processos de radicalização
democrática dos estados andinos (Equador, Peru, Bolívia); a renovação do
movimento negro no Brasil; os movimentos ligados às questões de gênero e da
sexualidade (as oceânicas manifestações de pluralismo que se tornaram os “dias
do orgulho Gay”) etc. Ou seja, não é verdade que para que os movimentos se
constituam precisamos voltar a uma unidade. Pelo contrário, é a própria
multiplicidade dos sujeitos que proporciona essa variedade incontrolável –
desde o ponto de vista do poder – dos movimentos. (Cocco, 2007)
Assim, acreditamos não ser
possível imaginar, hoje, que exista algum movimento social não relacionado ao
trabalho e ao capital, mas devemos
perceber que estamos vivendo em uma sociedade em que estes elementos não
estão mais restritos à fábrica e aos espaços de produção e não podem mais ser pensados isoladamente
como elementos condicionantes. A lógica da organização da produção mudou e a
lógica de construção da representação e de interpretação da realidade também se
alterou.
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do Sul. In: ______ (Org.). Informação, Conhecimento e Poder:
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