quinta-feira, 6 de agosto de 2015

CONCEITO DE MULTIDÃO, OS MOVIMENTOS SOCIAIS E SEUS DESDOBRAMENTOS.


   OS MOVIMENTOS SOCIAIS 'HOJE':

Como articular o movimento operário com a multidão.
           

            Alan Touraine (2007), questionando sobre a aplicabilidade e a definição do conceito de movimentos sociais nos dias atuais, lança uma pergunta em seu artigo que iremos considerar como o ponto de partida para o desenvolvimento deste trabalho:

 
Podemos ainda falar em movimento social em sociedades que chamaríamos pós-industriais, às quais muitos observadores chamam sociedade da informação ou da comunicação? Na realidade, a resposta a essa questão preside o emprego que os sociólogos devem ou não fazer da noção de movimento social, no mundo de hoje e em particular em seus setores economicamente mais modernos. (TOURAINE, 2006, p.6).


            Nosso objetivo é construir o conceito de movimentos sociais a partir da visão da sociologia e analisar como, na chamada sociedade da informação, os diferentes movimentos observados na sociedade civil organizada podem ser considerados sociais.

            Também propomos discutir o conceito de multidão a partir da visão de Negri e Hardt (2005), traçando uma definição para o conceito e buscando entender como, dentro desta visão sobre o corpo social, ocorrem os movimentos sociais, ou, como os movimentos sociais contemporâneos se organizam na multidão, em especial o movimento operário.

            Como pano de fundo em nossa análise, partiremos da concepção do que é a sociedade da informação buscando relacionar esses três conceitos: a sociedade da informação como o espaço, a multidão como o corpo social e os movimentos sociais como os atores.

 

            As análises dos diferentes autores sobre o modo de produção capitalista ao longo do tempo podem ser descritas como unânimes com relação ao fato de afirmarem que o capitalismo se modifica. Do capitalismo mercantil, passando pelo capitalismo industrial, podemos dizer que esse modo de produção vive, hoje, um período de transição. E o que nos permite afirmar isso é a observação da configuração de um novo regime de acumulação e uma mudança no próprio modo de produção. O capital ampliou seu domínio, ultrapassou os muros da fábrica e se estende sobre todo o planeta (Hardt e Negri, 2005).

            Nesta nova forma de organização a informação e o conhecimento passam não só a ser integrados aos componentes da produção como também se transformam em bens de consumo final. "A apropriação de informação e de conhecimento não é exclusiva por natureza, sendo mesmo o contrário: a sua utilização é condição para multiplicar o seu valor" (Lévy, 2003, p. 379).

            Informação e conhecimento passam a ter um papel definidor não apenas em relação ao processo produtivo, mas também relacionados à própria forma de estruturação da sociedade. Se agora esses elementos se transformaram em bens de consumo, como consumi-los? Como definir esta sociedade que surge no bojo do consumo destes bens específicos?

            Segundo Albagli e Maciel (2011), as primeiras abordagens nas décadas de 1960-70 que tratavam da sociedade da informação se focavam nas mudanças relacionadas à ocupação e ao emprego, ainda não aparecendo o papel da informação, do conhecimento e do imaterial de forma mais ampla.

A sociedade da informação, ou do conhecimento, ou ainda a chamada nova economia, é uma nova comunidade local e global, que tem sua base ancorada nas novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Sua mais importante atividade econômica baseia-se na distribuição e manipulação da informação.

Podemos dizer que o conceito de sociedade da informação procura descrever uma sociedade e uma economia que sabem usar as tecnologias disponíveis da melhor forma possível, tirando vantagens destas tecnologias em todos os aspectos relacionados ao seu cotidiano.

 
A expressão 'Sociedade da Informação' refere-se a um modo de desenvolvimento social e econômico, em que a aquisição, armazenamento, processamento, valorização, transmissão, distribuição e disseminação de informação desempenham um papel central na atividade econômica, na geração de novos conhecimentos, na criação de riqueza, na definição da qualidade de vida e satisfação das necessidades dos cidadãos e das suas práticas culturais. (LEGEY & ALBAGLI, 2000)

 

            A passagem, ou transformação, para a sociedade da informação pode se realizar a partir de três fenômenos interrelacionados: a convergência da base tecnológica, a dinâmica da indústria e o crescimento da internet (Livro verde, 2000). A sociedade da informação não é um modismo, mas uma mudança profunda nas bases sociais e econômicas. É um fenômeno de caráter global que se caracteriza pela transmissão de dados a baixo custo e pela vasta utilização de tecnologias de armazenamento que permitem à informação circular e se reproduzir numa proporção nunca antes imaginada. Sua dimensão social reside no fato de que promove a integração e reduz as distancias entre as pessoas, além de elevar seus níveis de informação (Livro verde, 2000).

 

            No prefácio do livro Multidão, Hardt e Negri nos falam da possibilidade, hoje, da concretização da democracia em escala global que estaria relacionada ao projeto da multidão, projeto que “não só expressa o desejo de um mundo de igualdade e liberdade, não apenas exige uma sociedade global democrática que seja aberta e inclusiva, como proporciona os meios para alcança-la” (Hardt e Negri, 2005). Mas que multidão é essa?

            A exatidão na circunscrição do espaço em que este conceito se situa é de primordial importância para diferenciá-lo de outros conceitos próximos e que possam vir a ser confundidos com ele. A multidão, segundo Hardt e Negri (2005) não é povo, nem massa, nem classe operária.

            O povo é uno, o que o opõe à multidão, que é múltipla. A massa não se reduz a uma unidade ou uma identidade, ela é composta de todos os tipos de espécies, mas engole todas as diferenças. A multidão é formada pela multiplicidade de orientações singulares e mantem as diferenças sociais existentes em seu interior, mas estas diferenças internas devem buscar o comum. A classe operária passou a ser, hoje, um conceito exclusivo composto de dois sentidos: ele tanto diferencia os trabalhadores dos proprietários como também diferencia a própria classe operária de outros indivíduos que precisam trabalhar. A multidão, por sua vez, é um conceito aberto e abrangente. Com relação à identidade, na multidão esta deveria ser substituída por singularidade, visto que são as singularidades que irão articular os modos de ser comuns e agrega-los.

            Os autores articulam o conceito de multidão com a possibilidade de concretização da democracia, como já foi dito, e duas características deixam clara esta contribuição, a primeira relacionada com seu aspecto econômico e a segunda com sua organização política. Com relação ao aspecto econômico, a multidão não é uma identidade nem é uniforme e suas diferenças internas devem leva-la a descobrir o comum [the common], que, segundo Negri (2001), deve ser entendido como uma categoria de produção (com impacto significativo sobre o campo ontológico). O comum não apenas serve de base para a comunicação, colaboração e cooperação, mas também é produzido por elas.

 

Esta produção do comum tende atualmente a ser central a todas as formas de produção social, por mais acentuado que seja seu caráter local, constituindo na realidade a característica básica das novas formas dominantes do trabalho hoje. (Hardt e Negri, 2005, p.14)

           

            Com relação ao aspecto político, não esquecendo que ele se une ao social, cultural e econômico, a contribuição está relacionada à sua forma de organização democrática, sendo possível observarmos sua mudança de configuração, passando de comandos centralizados a organizações em rede que deslocam a autoridade para relações colaborativas (Hardt e Negri, 2005).

            Um aspecto que devemos ressaltar ao falar da multidão usando como referencia a obra de Hardt e Negri, é que já no prefácio os autores deixam claro que para se pensar em um projeto político prático que proponha a criação de instituições democráticas e estruturas sociais, é preciso saber se realmente entendemos o significado real de democracia hoje. Como nossa proposta de trabalho não é discutir isso, achamos pertinente apenas apontar que os autores não partem de uma definição de democracia e apontam que pretendem desenvolver as bases conceituais para que esse novo projeto democrático possa ser pensado.

            Para que o conceito de multidão possa ser compreendido em sua forma mais geral e abstrata, Hardt e Negri (2005) o contrastam com o conceito de povo. Eles também contrastam multidão com turba, massas (mencionada acima) e populacho, mas iremos nos deter apenas à sua oposição ao conceito de povo.

            Como dissemos, o povo é uno e a multidão é plural e múltipla; o povo, por sua unidade, pode se constituir em poder soberano e a multidão, por sua multiplicidade, não pode; as partes que compõem o povo são indiferentes em sua unidade e se convertem em identidade ao negar suas diferenças. Assim, segundo Hardt e Negri (2005), as singularidades plurais da multidão contrastam com a unidade indiferenciada do povo.

           

De uma perspectiva socioeconômica, a multidão é o sujeito comum do trabalho, ou seja, a carne real da produção pós-moderna, e ao mesmo tempo o objeto a partir do qual o capital coletivo tenta formar o corpo de seu desenvolvimento global. O capital quer transformar a multidão numa unidade orgânica, assim como o Estado quer transformá-la num povo. É ai, através das lutas do trabalho, que a verdadeira figura biopolítica produtiva da multidão começa a surgir. (Hardt e Negri, 2005, p. 141).

 

            Os autores explicam que seu foco na multidão pelo aspecto socioeconômico se dá por conta da falta de atenção que a classe vem recebendo ultimamente e afirmam que a multidão é um conceito de classe (Hardt e Negri, 2005, p.143). Mas ressaltam que o conceito também abarca outras linhas de diferenças e hierarquias sociais, como gênero e raça, por exemplo. Assim, a produção biopolítica, ou formas contemporâneas de produção, não se relaciona apenas à produção de bens materiais em sentido econômico restrito, mas também envolve todas as facetas da vida social.


            Segundo o Dicionário de Ciências Sociais (1987), “Movimentos sociais são as tentativas coletivas de provocar mudanças, no todo ou em parte, em determinadas instituições sociais, ou de criar uma nova ordem social”. No século XIX, eram chamados de movimentos sociais aqueles que tinham como objetivo organizar a classe operária para que esta pudesse negociar benefícios e vantagens ou definir seu papel na nova ordem social. O conceito foi ampliado no século XX, abrangendo outros grupos considerados como minoritários no espaço social.

            Ainda segundo o Dicionário de CS, esses movimentos apresentam uma dupla função, sendo uma aparente, que se evidencia no recrutamento, nas inovações apresentadas e nos resultados produzidos. A função de formação de opinião pública e treinamento de liderança seria a que se desenvolve de forma menos explícita, ou oculta.

Nas ciências sociais não existe um consenso sobre o conceito, podendo até mesmo, segundo alguns autores, coexistirem paradigmas divergentes. Segundo Piccolotto (2007), os autores estabelecem concepções diferenciadas, indo desde os que trabalham com o modelo clássico e o norte americano (Alexander, 1998, apud Picolotto, 2007) até os que diferenciam os movimentos sociais em quatro grandes paradigmas, a saber, marxista, norte-americano, novos movimentos sociais e latino-americano (Gohn, 2000, apud Picolotto, 2007).

            Nossa proposta é fazer uma breve apresentação nos detendo na concepção clássica marxista e nas novas interpretações sobre os movimentos sociais, mas não consideramos como um dos objetivos deste trabalho confrontar essas diferentes linhas de pensamento e nem discutir as divergências que possam existir.

 

A concepção clássica marxista

Segundo Marx e Engels (1986), “A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”. As diferentes classes, que podem ser observadas desde a Antiguidade, sempre conviveram em constante oposição e numa guerra constante, que terminou ou pela transformação revolucionária de toda a sociedade ou pela eliminação das classes antagônicas.

            No Manifesto do Partido Comunista (1986), esses autores analisam, de forma breve, as transformações pelas quais a sociedade passa ao longo de sua existência e como a burguesia, aos poucos, vai organizando os meios necessários para sua consolidação e domínio. Mas ao mesmo tempo em que ela cria esses meios permite o surgimento de uma nova classe que irá antagonizar com ela: o proletariado. Já em seu nascimento tem início a luta do proletariado com a burguesia. Na descrição de Marx e Engels sobre a formação da classe operária e partindo da definição dada no Dicionário de Ciências Sociais, já é possível percebermos uma descrição do que seria um movimento social, mas devemos ressaltar que no texto este conceito não aparece.

           
O proletariado passa por diferentes estágios de desenvolvimento. A partir de seu nascimento começa a luta com a burguesia. No princípio a luta é assumida por trabalhadores individuais, depois pelos operários de uma mesma fábrica, a seguir pelos operários de um mesmo ramo da indústria, numa dada localidade, contra o burguês que os explora diretamente. Atacam não os condicionamentos burgueses da produção, mas os próprios meios de produção; destroem as mercadorias estrangeiras que lhes fazem concorrência, quebram as máquinas, queimam as fábricas e procuram reconquistar a posição perdida do artesão da Idade Média. (MARX; ENGELS, 1986)


            Segundo os autores, nesta fase o que podemos perceber ainda é a luta do proletariado contra os inimigos da burguesia e não os da classe operária. Mas o desenvolvimento da indústria gera o aumento do proletariado, o que leva ao seu fortalecimento, e os conflitos individuais que surgem vão assumindo cada vez mais o caráter de conflitos de classes.

 
A partir daí os trabalhadores começam a formar uniões (sindicatos) contra os burgueses; atuam em conjunto na defesa dos salários; fundam associações permanentes que os preparam para esses choques eventuais. Aqui e ali a luta se transforma em motim. (MARX; ENGELS, 1996)

 
            O pensamento de Marx contribuiu para a chamada concepção clássica dos movimentos sociais, que privilegia as interpretações históricas das revoluções. Como foi dito, em seus escritos ele não usa o conceito de movimentos sociais, mas suas reflexões sobre a organização da classe operária e suas lutas nos leva a perceber a pertinência de se apropriar de seu pensamento para compreender e definir as características deste conceito e explica-lo.

 
Todos os movimentos históricos precedentes foram movimentos minoritários, ou em proveito de minorias. O movimento proletário é o movimento consciente e independente da imensa maioria, em proveito da imensa maioria. O proletariado, a camada inferior da nossa sociedade, não pode erguer-se, pôr-se de pé, sem fazer saltar todos os estratos superpostos que constituem a sociedade oficial. (MARX; ENGELS, 1986)

 

As interpretações contemporâneas dos movimentos sociais

            Dentre as novas leituras sobre os movimentos sociais, o paradigma dos Novos Movimentos Sociais busca ir além da visão clássica marxista, em que as estruturas sociais se sobrepõem às subjetividades dos atores sociais e ignoram as influencias de sua cultura e de sua criatividade.


Assim, entende-se que a ênfase analítica nas determinações das estruturas sociais pode servir muito bem para explicar por que os movimentos surgem, mas revela-se incapaz de explicar como eles surgem e se mantém no longo prazo (Gohn, 2000, apud Picolotto, 2007).

 

            Essa visão está voltada para estabelecer uma análise dos movimentos que surgem a partir da década de 1960, principalmente na Europa. Dentro desta concepção os atores sociais passam a ter um papel importante nas ações em detrimento do papel das estruturas sociais.

            Retornando ao autor que deu a partida para a concepção deste trabalho, Alan Touraine (2006), propor uma nova definição e análise dos movimentos sociais, de suas características e interpretações, somente seria pertinente com a inserção de outros elementos nesta revisão. Ele apresenta duas possibilidades, a primeira que vê os movimentos sociais mais como uma categoria histórica, e desse modo, ligada a um tipo de sociedade que foi deixada para trás. Isso ampliaria a sua definição e sua aplicabilidade não seria mais necessária. Assim, quando ele utiliza como exemplo a sociedade industrial como um dos tipos de sociedade ligada aos movimentos sociais, hoje, na sociedade pós-industrial, sociedade da informação, não caberia mais empregarmos este conceito.

            A segunda possibilidade está na ênfase dada aos fenômenos de globalização que deslocaram os espaços e os mecanismos de conflito (Touraine, 2006). Assim, os movimentos sociais que realmente merecem ser estudados são aqueles que:


[...] colocam em questão os mecanismos de globalização que, em larga medida, não suscitam decisões semelhantes àquelas adotáveis por uma “classe dirigente”, e não aqueles que se opõem a categorias sociais no interior de um conjunto político ou territorial bem determinado. (Touraine, 2006)  

            Indo além, o autor nos adverte que “É necessário não aplicar a noção de movimentos sociais a qualquer tipo de ação coletiva, conflito ou iniciativa política”, (Touraine, 2006). Uma interpretação inicial de sua colocação nos leva a entender que o conceito, de tão usado para explicar qualquer tipo de movimento de caráter contestatório organizado pelos atores sociais, acabou ficando desgastado e perdeu seu sentido original. Sua proposta é que:

 

[..] um movimento social é a combinação de um conflito com um adversário social organizado e da referência comum dos dois adversários a um mecanismo cultural sem o qual os adversários não se enfrentariam, pois poderiam se situar em campos de batalha ou em domínios de discussão completamente separados – o que impediria, por definição, tanto o conflito e o enfrentamento quanto o compromisso ou a resolução de conflito. (Touraine, 2006)

           

            Assim, ele restringe bem o que seriam movimentos sociais, mas nos diz que não devemos levar isso de forma muito rígida, pois não necessariamente um conflito social ou uma ação coletiva precisa estar embasado por uma forte ideologia para que seja considerado como conflito social. E, por outro lado, ideologias que recorrem a conflitos significativos na sociedade não são necessariamente manifestações de movimentos sociais ou antagonismos.

            Como dissemos anteriormente, o paradigma dos Novos Movimentos Sociais privilegia a figura do ator social em detrimento das estruturas sociais, e Touraine se coloca deste mesmo modo, pois para ele não podemos falar de movimento social sem nos colocarmos no ponto de vista dos atores envolvidos no conflito e conscientes do que tem em comum. Os movimentos sociais devem ser entendidos como condutas coletivas e não como formas de evolução de um sistema, como foi posto na concepção clássica marxista.

            Um último autor que gostaríamos de abordar neste tópico é Melucci. Para ele, os movimentos [sociais] devem ser entendidos como sistemas de ação, ou seja, deve-se descobrir o sistema de relações internas e externas que constituem a ação.

Segundo Melucci (1989), na Europa da década de 1970, autores como Touraine e Habermas atribuíram novas formas de conflito e formação de novos atores às mudanças ocorridas no capitalismo pós-industrial. Ele retoma um dos pontos destacados anteriormente neste trabalho, a saber, que estas teorias baseadas na análise de sistemas dos anos de 1970 deixam dois problemas sem solução: explicam porque mas não como um sistema se estabelece e mantem sua estrutura. E que, ao contrário, os pesquisadores que usam o modelo de mobilização de recursos não percebem na ação coletiva seu significado e orientação, ou seja, explicam o como mas não o por que (Melucci, 1989). Sua opção de trabalho seria uma concentração na análise do como mas sem negligenciar o por quê.

            Melucci coloca que, hoje, os movimentos sociais frutos de conflitos sociais não são apenas políticos, porque afetam o sistema como um todo, e analisa-los por esta perspectiva apenas os limitam. No terreno do teórico aponta que o campo dos movimentos sociais é um dos mais difíceis de ser definido, e suas definições são mais empíricas do que propriamente conceitos analíticos. Para o autor, um movimento social, definido analiticamente, é:

Uma forma de ação coletiva (a) baseada na solidariedade, (b) desenvolvendo um conflito, (c) rompendo os limites do sistema em que ocorre a ação. Estas dimensões permitem que os movimentos sociais sejam separados dos outros fenômenos coletivos [...] que são, com muita frequência, empiricamente associados com movimentos e protestos. (Melucci, 1989)

            Assim, para Melucci, o que muitas vezes é chamado de movimentos sociais possui uma certa quantidade destes elementos acima e precisa passar por uma peneira para ser separado e identificado, e só então poderemos entender o significado de uma determinada ação coletiva.

 
         Ao definir multidão, Hardt e Negri (2005) a colocam como um projeto que pode empreender a democracia em escala global. Os movimentos sociais carregam em seu bojo o germe da democracia, visto que ela é um dos princípios de organização destes movimentos. Encontramos, assim, um primeiro elo de ligação entre esses dois sujeitos, a luta pela democracia.

            A multidão é múltipla, ou seja, é formada pela multiplicidade que busca o comum. Mesmo sendo aparentemente antagônica esta afirmativa, o comum aqui é entendido como aquilo que une os indivíduos em suas diferenças e multiplicidades e não a produção da homogeneidade. Um olhar por cima poderia enxergar o corpo social de hoje como um conjunto de práticas sociais e identidades pulverizadas, o que contradiz a ideia do projeto da multidão. Mas uma visão mais apurada enxergaria exatamente nesta pulverização a multiplicidade da multidão. A questão que devemos nos colocar é como essa multiplicidade encontra o comum. Como encontrar o comum dentro da multidão pela ótica dos movimentos sociais, ou, como pensar o movimento operário dentro da multidão?

            A sociedade de hoje encontra-se fragmentada e, segundo Cocco (2007), isso é uma consequência da “[...] crise do mundo industrial e a passagem a um capitalismo organizado em redes e que agrega valor a partir do conhecimento” (Cocco, 2007). Essa fragmentação pode ser percebida:


[...] no aumento das desigualdades, multiplicação dos estatutos do trabalho formal, aumento do desemprego e do trabalho informal, alternância entre períodos de atividades aberta e períodos de formação, precarização dos contratos e mais em geral da proteção social etc. (Cocco, 2007)


            Como consequência desta fragmentação podemos identificar dois movimentos singulares. O primeiro que aponta para o esfacelamento das formas de representação e da organização sindical, que pode em certo sentido refletir no declínio dos movimentos sociais de maneira geral, e, dentro deles, aqueles ligados ao movimento operário. O segundo, que oriundo do primeiro movimento, não implica nesse esfacelamento, mas ao contrário, em uma reorganização e redefinição de interesses e expectativas, com a necessidade de construção de novas formas de organização e com o uso de novas ferramentas para expressar seus princípios e propósitos circunscritos aos novos parâmetros que organizam a multidão dentro da sociedade da informação.

Os movimentos sociais, segundo Alexander (1998), podem ser vistos como mecanismos sociais que constroem traduções entre o discurso da sociedade civil e os processos institucionais específicos de tipo mais particularista. É como dizer que um movimento social passará a ter significado quando for capaz de interferir nas atribuições do Estado, por exemplo.

Portanto, o movimento operário, como uma das expressões dos movimentos sociais, dentro do cenário da sociedade da informação e no corpo social da multidão, pode ser visto como mais um dos grupos que formam a multidão e que buscam legitimar sua voz, não podendo ou devendo, assim, ser confundido com ela.

Como foi exposto anteriormente, multidão não é classe operária porque esta tanto pode diferenciar os trabalhadores dos proprietários como também diferenciar a própria classe operária de outros indivíduos que precisam trabalhar e que não são, necessariamente, trabalhadores que exerçam algum tipo de trabalho mecânico na fábrica, como também exclui de seu interior outras formas de trabalho.  No pensamento tradicional marxista, a classe operária, por ser a classe produtiva primordial, estaria sob o controle do capital e seria o único sujeito capaz de agir com eficácia contra ele. As outras classes, assim, deveriam se submeter à liderança da classe operária para empreenderem a luta contra o capital.

            A multidão é “formada por todos aqueles que trabalham sob o domínio do capital, e, assim, potencialmente como a classe daqueles que recusam o domínio do capital” (Hardt e Negri, 2005, p. 147). Essa característica da multidão incorpora em seu interior múltiplos sujeitos sociais: trabalhadores, desempregados, subempregados, trabalhadores imateriais etc. O trabalho imaterial é aquele próprio da sociedade da informação e compreende a produção de bens imateriais, de valores.

Assim, isso implica em uma revisão desta perspectiva tradicional marxista incluindo agora a classe operária como um dos agentes sociais, junto aos demais, na busca por representação de seus interesses, mas não necessariamente como a classe que lidera todas as outras. Dentro do contexto da multidão, e na nova organização estrutural da sociedade da informação, se desconstrói a figura da liderança por um único sujeito e passa-se, então, a uma liderança compartilhada. O meio para essa liderança democrática é o virtual, a organização em redes. E a multidão, segundo Hardt e Negri (2005, p. 12), é uma rede aberta e em expansão que proporciona os meios de convergência para o trabalho e a vivência em comum.

            Como perceber dentro do contexto da multidão a possibilidade de existência de outros movimentos de luta ou de resistência fundados sobre motivos que não sejam relacionados diretamente com a questão do trabalho e do capital? Como pensar a ligação destes movimentos com aqueles relacionados diretamente ao trabalho e ao capital? Quais são as outras motivações que orbitam ao redor do movimento operário além das questões relacionadas ao capital e ao trabalho e criam interfaces entre esses atores e outros movimentos sociais? Quais são as novas exigências que a sociedade da informação impõe ao movimento operário? Que novos instrumentos e ferramentas se tornam acessíveis ao movimento operário para que ele se reestruture em seu campo de ação?

            São muitas as perguntas e poucas as respostas, e não é exatamente aqui, na conclusão, que estas perguntas deveriam ser lançadas. Mas foi justamente aqui, ao final, que elas se tornaram mais evidentes. No decorrer das leituras para este trabalho inúmeros questionamentos foram feitos, muitos nem chegando a ser incluídos. Algumas destas respostas são as que procurarei responder no decorrer do desenvolvimento da minha tese, mas certas constatações já foram feitas, e algumas questões devem ser respondidas.

            Na sociedade da informação, o uso das TICs é uma realidade, seja nas organizações produtivas, administrativas, na gerência do Estado ou na vida diária.  E com relação aos movimentos sociais não é diferente:

 

Movimentos sociais fazem uso da internet na contemporaneidade de diversas formas: para divulgar causas, angariar novos adeptos, organizar protestos online e offline, coletar assinaturas para petições, dentre diversos – e criativos – outros usos. A primeira experiência geralmente referida em artigos acadêmicos de ativismo na internet foi a dos mexicanos do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em 1994. Como relatam Pimenta e Rivelo (2008), o movimento de indígenas zapatistas enviava comunicados a jornais e rádios para informar sobre o levante por direitos básicos que organizavam na região de Chiapas. O protesto reivindicava direitos locais ao mesmo tempo em que apresentava uma pauta universal, que era a denúncia das contradições do capitalismo. As declarações dos zapatistas passaram a ser replicadas na internet, em sites e em e-mails, e culminaram com a formação de uma rede de solidariedade de movimentos sociais de diversos países. (Lara, 2011)

           

Com o advento das interfaces amigáveis e a mobilidade do uso e acesso à internet, podemos identificar que os movimentos sociais passam a utilizar estas ferramentas como forma de atuação política, não só para convocar integrantes do movimento, mas também como forma de propaganda e de sedução de novos participantes.

Não devemos esquecer também das possibilidades infinitas de visibilidade que estes movimentos passam a ter. Quem tem um perfil público no Facebook, por exemplo, pode verificar como ele é usado para mobilizar os indivíduos em torno de uma causa, seja esta causa de abrangência particular (pedido de doação de sangue para um paciente específico) ou ampla (convocação para a marcha contra a corrupção, ou apoio a greve dos bombeiros no RJ). E não necessariamente quem convoca é o usuário comum, pois muitos movimentos sociais possuem páginas públicas.

Segundo Cocco (2007), existe realmente uma crise das massas operárias organizadas em partidos e sindicatos, e podemos ir além e relacionar esta crise à própria identidade dos diferentes grupos organizados na sociedade. Creio que devemos postular que as transformações que sucederam as sociedades industriais ainda se fazem como movimento e não permitem identificar modelos determinantes de estruturas mais estáveis que aglutinem os atores sociais, como até então ocorria. Apropriar-se de uma nova lógica de mudança constante talvez seja o novo desafio do movimento operário e, quem sabe, dos demais atores dos movimentos sociais, que, de certo modo, está alinhado com o que Cocco identifica como a fragmentação da sociedade, que falamos acima. Segundo ele:

 

Mas assistimos também a uma multiplicação de movimentos que foram e são capazes de articular pelo avesso essa fragmentação: desde as grandes manifestações para a democratização da globalização (o ciclo que começou em Seattle, passou por Genova e chegou até Rostock, nesse verão europeu); o movimento pela paz, que mobilizou a multidão em todas as cidades do mundo contra a guerra do Iraque; as mobilizações dos migrantes, as mais importantes tendo sido aquelas dos ilegais – muito deles latinos – nos Estados Unidos; a participação das populações indígenas nos processos de radicalização democrática dos estados andinos (Equador, Peru, Bolívia); a renovação do movimento negro no Brasil; os movimentos ligados às questões de gênero e da sexualidade (as oceânicas manifestações de pluralismo que se tornaram os “dias do orgulho Gay”) etc. Ou seja, não é verdade que para que os movimentos se constituam precisamos voltar a uma unidade. Pelo contrário, é a própria multiplicidade dos sujeitos que proporciona essa variedade incontrolável – desde o ponto de vista do poder – dos movimentos. (Cocco, 2007)

            Assim, acreditamos não ser possível imaginar, hoje, que exista algum movimento social não relacionado ao trabalho e ao capital, mas devemos perceber que estamos vivendo em uma sociedade em que estes elementos não estão mais restritos à fábrica e aos espaços de produção e não podem mais ser pensados isoladamente como elementos condicionantes. A lógica da organização da produção mudou e a lógica de construção da representação e de interpretação da realidade também se alterou.


Referencias:

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ALEXANDER, Jeffrey C. Ação Coletiva, Cultura e Sociedade Civil: Secularização, atualização, inversão, revisão e deslocamento do modelo clássico dos movimentos sociais. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 13, n. 37, Jun.  1998. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69091998000200001. Acesso em: 10 dez. 2011.

ENTREVISTA – Professor Giuseppe Cocco (UFRJ). Revista Eletrônica Portas, v.1, n.1, p.79-80, dez.2007.

GUIMARAENS, Francisco de. Spinoza e o conceito de multidão: reflexões acerca do sujeito constituinte. Direito, Estado e Sociedade, v.9 - n.29 - p 152 a 173 - jul/dez 2006.

HARDT, Michael, NEGRI, Antonio. Multidão – Guerra e Democracia na era do Império. Rio de Janeiro: Record, 2005.

HARDT, Michael e NEGRI, Antonio. A Luta por “Democracia Real” no Coração do Ocupar Wall Street. Publicado em Foreign Affairs, em 11/10/2011. Disponível em: http://www.foreignaffairs.com/articles/136399/michael-hardt-and-antonionegri/the-fight-for-real-democracy-at-the-heart-of-occupy-wall-street.

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LEGEY, L.R; ALBAGLI, S. Sociedade da Informação no Brasil: uma nova agenda. DataGramaZero, 1(5) out. 2000. Disponível em: http://www.dgz.org.br/out00/Art_02.htm Acesso em: 09 dez. 2011.

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MARX, Karl. Contribuição a critica da economia política. São Paulo: Martins Fontes, 1983.

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