sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Falando nisso..

  Falando em propaganda das antigas, vamos dar uma olhadinha na História da propaganda no Brasil ?
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A história moderna da propaganda no Brasil começa na segunda década do

século XX, como um reflexo da industrialização acelerada que ocorre na Europa Ocidental e

nos Estados Unidos. Nas décadas de 20 e 30, virão as agências americanas, acompanhando

seus clientes anunciantes em busca de novos mercados. Nelas uma primeira geração de

publicitários brasileiros será instruída sobre a verdadeira racionalização do trabalho da

propaganda. Nos anos 40 e 50 o Brasil cria as bases para o seu desenvolvimento industrial.

Os anos 60 são marcados pela ruptura do processo político e pela opção ditatorial de

crescimento econômico a qualquer custo. Nesta conjuntura, a sociedade de consumo chega

ao país. Nos anos setenta a crise do petróleo enterra o modelo econômico imposto pelos

militares. Os anos 80 trazem a redemocratização e, ao mesmo tempo, uma economia mal

resolvida. O mercado interno sobrevive a duras penas e a indústria da propaganda se

consolida. Os anos 90 estréiam com nova crise política e inflação alta, mas a abertura

econômica anima o mercado. Um novo plano econômico detém a inflação, a partir da metade

da década o país volta a crescer em meio a turbulência dos mercados globais. O negócio da

propaganda no Brasil já tem envergadura, e se alinha entre os 10 maiores do mundo,
 
segundo a revista norte-americana Advertising Age.

A história moderna da propaganda no Brasil começa na segunda década do século XX,

como um reflexo da industrialização acelerada que ocorre na Europa Ocidental e nos Estados

Unidos.

O Brasil de então é um país essencialmente agrícola, mas seu mercado já atraía a

atenção de muitas empresas estrangeiras interessadas em aumentar a presença comercial de

seus produtos em outros países.

A primeira agência de publicidade vai se estabelecer, em 1913, na cidade de São
Paulo. A Castaldi & Bennaton – depois chamada A Eclética – inaugura o ciclo profissional da


atividade no Brasil.
Os primeiros anunciantes são as lojas de varejo, pneus Dunlop, Kodak, as máquinas de

escrever Underwood e a Colgate, com seus então “revolucionários” artigos de higiene


pessoal.

Os publicitários da época são os poetas, escritores e pintores que não conseguem viver

somente da sua produção intelectual e artística e buscam a subsistência na criação de textos e

ilustrações para as incipientes campanhas de propaganda.

Em 1918 já existem muitas agências de publicidade em São Paulo e Rio de Janeiro, o

comércio se desenvolve e o número de anunciantes aumenta.
O slogan da empresa farmacêutica alemã Bayer - Se é Bayer é bom -, depois utilizado


mundialmente, foi criado no Brasil nessa época romântica.

No início da década de 20 começaram a se instalar no Brasil as filiais das agências

americanas, que seguem os passos dos seus clientes anunciantes na conquista de novos

mercados.
No final desta mesma década a General Motors (divisão Chevroletl) já tem 27


profissionais de publicidade, entre americanos e brasileiros, envolvidos na comunicação dos

produtos importados para consumo no Brasil. Nesta época os jornais e algumas poucas

revistas eram os meios mais utilizados na difusão da publicidade, mas o rádio começava a

funcionar em caráter experimental e os cartazes de rua se apresentaram como novos veículos
para as mensagens comerciais. Logo surgirá a lendária revista O Cruzeiro, que segue o

modelo da revista Life americana - com muitas ilustrações e cores na capa - será um veículo


importante para anunciar os novos produtos que surgem a uma sociedade que se urbaniza e

anseia ser moderna.
Ainda neste período, como reflexo do crack da bolsa em 1929, nos Estados Unidos,


algumas agências americanas seguem seus clientes anunciantes ao exterior num esforço de
expansão dos negócios em novos mercados. A agência Ayer & Son de Nova York, depois

chamada J. W. Thompson, chega ao Brasil estabelecendo-se no Rio de Janeiro, então a capital


federal e já uma cidade com ar cosmopolita.

Nos anos 30, os profissionais americanos vão transformar o trabalho, quase empírico

que se fazia em publicidade no Brasil, ao introduzir uma primeira geração de publicitários

brasileiros na verdadeira racionalização da produção realizada nas agências de propaganda.
Em 1938, a agência Mc Cann-Erickson instala uma filial no Brasil para atender a conta

de publicidade das geladeiras Frigidaire, fabricadas nos Estados Unidos pela General Motors


e, mais tarde, será encarregada também da publicidade dos caminhões e carros importados

pela empresa.

No final dos anos 30 já existem 50 agências de publicidade em atividade no mercado

brasileiro, localizadas principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo.

Na primeira metade dos anos 40, a 2ª Guerra Mundial provocou uma redução das

atividades comerciais e - em decorrência – nos investimentos em publicidade. No entanto, o

mercado interno saiu fortalecido desta experiência porque muitos produtos - antes somente

disponíveis por meio da importação - ou tiveram que ser esquecidos pelos consumidores ou,

em alguns casos, começaram a ser fabricados no Brasil, dando uma primeira partida à

industrialização do país.

Em 1945, os Estados Unidos saem da guerra com a supremacia industrial e comercial

em todo o mundo. Enquanto isso o Brasil tenta criar uma base para o seu desenvolvimento,

investindo principalmente em siderurgia, produção e refino de petróleo.

As empresas americanas voltam a investir no mercado brasileiro, algumas inclusive

instalam fábricas no país, construindo novas unidades de produção ou absorvendo pequenas

indústrias nacionais criadas no período da guerra.

O Brasil, que nesta época ainda segue com um perfil agrícola, já experimenta algumas

mudanças sociais e econômicas importantes. Nas Regiões Sul e Sudeste, a população começa

a sair da área rural para as cidades que oferecem melhor qualidade de vida. O consumo de

produtos industrializados cresce e a competição entre as empresas também. O comércio

favorece a atividade publicitária. No início da década de 50, mais de 100 agências
funcionavam no Brasil, algumas nacionais como a agência Norton, fundada em 1946 por


Geraldo Alonso - que formou parte da primeira geração de publicitários capacitados por

profissionais americanos - e outras, principalmente subsidiárias das grandes agências

americanas.

Os meios impressos ainda dominavam como veículos da publicidade, mas o rádio já

possui uma audiência considerável e começa a destacar-se como meio para atingir com

efetividade os consumidores. As técnicas utilizadas nos Estados Unidos para veicular
publicidade em rádio chegaram ao Brasil. A gravação dos jingles, principalmente no Rio de

Janeiro e São Paulo, são realizadas em estúdios com recursos especiais e com locução
personalizada. Programas, shows e noticiários são desenvolvidos especialmente para os

anunciantes.
Um dos noticiários radiofônicos mais importantes produzidos a partir dos anos 40 -
que faz parte da história do jornalismo brasileiro – é o Repórter Esso. Com o slogan

“Testemunha ocular da história”, ele vai marcar uma época e criar novos padrões no
tratamento e na apresentação das notícias no rádio.
Em 1950 é inaugurada em São Paulo a TV Tupi, a primeira emissora de televisão

brasileira. Propriedade do famoso e polêmico Assis Chateaubriand, na época proprietário dos
Diários Associados, a maior cadeia de jornais no Brasil. Mas a televisão, como meio de

comunicação capaz de atingir grandes audiências – e de massificar as mensagens publicitárias
- só vai se consolidar no final dos anos 60.
Ainda na metade dos anos 50, a economia brasileira passa por um período de
transformação intensa. O Presidente Juscelino Kubistchek, que tinha como slogan do seu

governo “50 anos em 5”- uma referência à aspiração de desenvolver o país no curto período
do seu mandato - vai promover a abertura do mercado à empresas estrangeiras, oferecendo
vantagens econômicas para aquelas que desejassem se estabelecer no Brasil. Com esta
estratégia ele consegue atrair a indústria automobilística e outras empresas multinacionais a
seguirão, interessadas neste novo mercado que se desenvolve.
Essas mudanças na economia se refletiram também no mercado publicitário e
agências americanas - e depois européias - vão reforçar sua presença no país. Algumas
agências nacionais também aproveitam o momento e inclusive, em alguns casos, passam a
competir em pé de igualdade com as representantes de grupos internacionais. Um exemplo
destacado desse período foi a Alcântara Machado/Periscinoto, fundada em 1956 para atender
a Volkswagen, a primeira montadora de automóveis a se instalar no Brasil.

Nos primeiros anos da década de 60 ocorre no país uma crise político-institucional,
tendo como um dos fatores de tensão uma sociedade emergente composta por uma classe
média urbana e uma nova classe de operários industriais não satisfeitas com os rumos de uma
economia que se transforma, mas que não oferece os benefícios almejados. A crise não
resolvida leva o país a uma ditadura militar. O novo governo, com a sociedade civil

manietada, define a estratégia de desenvolvimento a ser seguida a qualquer custo: o país irá
buscar capital estrangeiro para financiar a economia industrial.
Até o início da década de 70 o desenvolvimento brasileiro é considerado um
fenômeno, com cifras de crescimento do PIB de até 10% ao ano e com a produção de uma
enorme variedade de produtos. Enquanto isso a sociedade civil continua tolhida pelas leis de
exceção que sufocam qualquer idéia discordante às ações do governo. É nesse conjuntura que
se instala a denominada sociedade de consumo no Brasil.
O mercado se desenvolve e as cidades com maior atividade industrial crescem
desordenadamente, atraindo habitantes das regiões menos favorecidas do país em busca de um
melhor padrão de vida.
A indústria da publicidade vai desempenhar um papel muito importante nas mudanças
que ocorrem, porque é o instrumento utilizado na massificação das mensagens que prometem
um “admirável mundo novo” aos consumidores dos “maravilhosos” produtos da era
industrial, agora disponíveis no Brasil. O governo também vai fazer uso sistemático da
propaganda para impor seus pontos de vista e reforçar as promessas de um futuro dourado aos
brasileiros.
O negócio da publicidade no Brasil experimenta um desenvolvimento excepcional
neste período, que vai da segunda metade da década de 60 até o início dos anos 70. A
televisão recebe grandes investimentos em novas tecnologias de transmissão - como as redes
terrestres de microondas e a utilização de canais do satélite americano Intelsat para levar os

sinais a todo o território nacional.
Ainda no final dos anos 60, é implantado o sistema de televisão colorido, que se
popularizará rapidamente com o barateamento dos receptores na década seguinte. A produção
mais elaborada dos programas e, principalmente, das telenovelas transmitidas em cadeia
nacional vai cativar as audiências. A televisão se entroniza como principal mídia para
massificação das mensagens publicitárias porque, além de alcançar todo o país, atinge
telespectadores de todas as classes sociais.
Nesta mesma época o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística - IBOPE já
realiza pesquisas de audiência. Também desembarcam no país outras empresas internacionais
especializadas em sondagens do público, dos meios e do mercado consumidor. Este é o caso
da Marplan, empresa ligada inicialmente à filial brasileira da agência americana Mc Cann-
Erickson. Ela vai realizar análises pioneiras sobre os desejos e motivações dos consumidores.
 
O aumento da escala de mercado e da competição entre as empresas exigirá que os
planos estratégicos de marketing sejam adequados às práticas de mercados mais
 
desenvolvidos.
A crise mundial do petróleo, no início dos anos 70, vai deter a trajetória do "milagre"
desenvolvimentista brasileiro. O capital internacional que financiou este modelo econômico
não vai estar mais disponível.
Nesse momento, como o mercado interno brasileiro já se encontra bastante evoluído e
a economia - mesmo seguindo um curso errático até o final dos anos 70 - é sustentada
principalmente pela demanda interna. Diante dessa circunstância negativa, a pressão popular
cresce e força o governo ditatorial a um processo de abertura política, que resultará mais a
frente na redemocratização do país.
Mesmo com o desenvolvimento econômico truncado, a indústria da publicidade no
Brasil seguiu seu rumo porque, no auge da crise, os investimentos anuais se mantiveram no
patamar dos 2 bilhões de dólares.
A partir da metade década de 80, sob a nova conjuntura política, a economia volta a
dar sinais de crescimento e os investimentos em publicidade voltam crescer.
Os anos 90 estréiam com uma economia em desenvolvimento moderado, mas ainda
sob pressão da inflação. Os investimentos em publicidade chegam a 4 bilhões de dólares.
A partir de 1995, com a implantação do Plano Real – onde o processo inflacionário foi
contido - o cenário econômico se alterou positivamente e, até o momento, tem animado a
expansão do mercado consumidor brasileiro.
Os recursos aplicados em publicidade no Brasil permanecem em ascensão e, de acordo
com o semanário especializado Meio & Mensagem (03/2001), já alcançam o valor de 6,43
bilhões de dólares/ano.
 
É interessante notar que o Brasil é o único país emergente a figurar neste ranking da

revista americana Advertising Age, especializada em propaganda. Os investimentos realizados


em publicidade ultrapassam as cifras de alguns países ditos desenvolvidos, como Itália e

Canadá. Isto revela a envergadura do mercado - para muitos considerado periférico -, mesmo

sendo levado em conta as distintas condições econômicas, sociais e territoriais dos países

aludidos.

Ainda no contexto dos investimentos em publicidade no Brasil, sobressaem os gastos

com o meio televisão, que domina amplamente com 56,09% do total das aplicações. Mas este

percentual já foi maior, a partir do final da década de 60 o faturamento do meio televisão

cresceu até atingir 64% do total, no final da década de 80. Esta mídia vem ultimamente

sofrendo uma competição mais forte dos meios impressos, refletindo algumas mudanças de

caráter sócio-econômico ocorridas no Brasil. Os jornais e as revistas são utilizadas na

veiculação de anúncios de produtos e serviços dirigidos às classes de maior poder aquisitivo.

A televisão aberta segue sendo o principal veículo publicitário no Brasil, dada a

facilidade com que atinge a massa de consumidores dispersos no imenso território nacional. A

veiculação nacional de um único comercial, normalmente com a duração de 30 segundos, em
horário de maior audiência na Rede Globo pode custar até o equivalente a 100 mil dólares,


mas a mensagem do anunciante pode chegar instantaneamente a mais de 70 milhões de

espectadores. Segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, hoje a

televisão está presente em 84% dos domicílios brasileiros.

O quadro seguinte mostra o volume de investimentos realizados pelos 10 principais

anunciantes no mercado brasileiro, no ano de 2000:
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No link abaixo você tem na íntegra o artigo com o resumão sobre o assunto inclusive com quadros de valores investidos e lucros obtidos , importante ressaltar que nessa época houveram manifestações para ampliar o direito da mulher e a participação social dela aumentou muito por conta disso, os movimentos feministas da época causaram essa mudanças; nos próximos posts vamos no aprofundar nisso.

http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2001/papers/NP3QUADROS.PDF


 

Propagandas da década de 50.

  Pesquisando pra minha Pós graduação sobre as propagandas da década de 50, olha que legal o vídeo que eu achei com as propagandas antigas !
  No mínimo dá a maior nostalgia pra quem viu e pra quem não chegou a ver dá vontade de ter vivido essa época pra ver como eram mais reais e criativos os ''merchans'' -

https://www.youtube.com/watch?v=qEX8zaLFKgs

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

CONCEITO DE MULTIDÃO, OS MOVIMENTOS SOCIAIS E SEUS DESDOBRAMENTOS.


   OS MOVIMENTOS SOCIAIS 'HOJE':

Como articular o movimento operário com a multidão.
           

            Alan Touraine (2007), questionando sobre a aplicabilidade e a definição do conceito de movimentos sociais nos dias atuais, lança uma pergunta em seu artigo que iremos considerar como o ponto de partida para o desenvolvimento deste trabalho:

 
Podemos ainda falar em movimento social em sociedades que chamaríamos pós-industriais, às quais muitos observadores chamam sociedade da informação ou da comunicação? Na realidade, a resposta a essa questão preside o emprego que os sociólogos devem ou não fazer da noção de movimento social, no mundo de hoje e em particular em seus setores economicamente mais modernos. (TOURAINE, 2006, p.6).


            Nosso objetivo é construir o conceito de movimentos sociais a partir da visão da sociologia e analisar como, na chamada sociedade da informação, os diferentes movimentos observados na sociedade civil organizada podem ser considerados sociais.

            Também propomos discutir o conceito de multidão a partir da visão de Negri e Hardt (2005), traçando uma definição para o conceito e buscando entender como, dentro desta visão sobre o corpo social, ocorrem os movimentos sociais, ou, como os movimentos sociais contemporâneos se organizam na multidão, em especial o movimento operário.

            Como pano de fundo em nossa análise, partiremos da concepção do que é a sociedade da informação buscando relacionar esses três conceitos: a sociedade da informação como o espaço, a multidão como o corpo social e os movimentos sociais como os atores.

 

            As análises dos diferentes autores sobre o modo de produção capitalista ao longo do tempo podem ser descritas como unânimes com relação ao fato de afirmarem que o capitalismo se modifica. Do capitalismo mercantil, passando pelo capitalismo industrial, podemos dizer que esse modo de produção vive, hoje, um período de transição. E o que nos permite afirmar isso é a observação da configuração de um novo regime de acumulação e uma mudança no próprio modo de produção. O capital ampliou seu domínio, ultrapassou os muros da fábrica e se estende sobre todo o planeta (Hardt e Negri, 2005).

            Nesta nova forma de organização a informação e o conhecimento passam não só a ser integrados aos componentes da produção como também se transformam em bens de consumo final. "A apropriação de informação e de conhecimento não é exclusiva por natureza, sendo mesmo o contrário: a sua utilização é condição para multiplicar o seu valor" (Lévy, 2003, p. 379).

            Informação e conhecimento passam a ter um papel definidor não apenas em relação ao processo produtivo, mas também relacionados à própria forma de estruturação da sociedade. Se agora esses elementos se transformaram em bens de consumo, como consumi-los? Como definir esta sociedade que surge no bojo do consumo destes bens específicos?

            Segundo Albagli e Maciel (2011), as primeiras abordagens nas décadas de 1960-70 que tratavam da sociedade da informação se focavam nas mudanças relacionadas à ocupação e ao emprego, ainda não aparecendo o papel da informação, do conhecimento e do imaterial de forma mais ampla.

A sociedade da informação, ou do conhecimento, ou ainda a chamada nova economia, é uma nova comunidade local e global, que tem sua base ancorada nas novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Sua mais importante atividade econômica baseia-se na distribuição e manipulação da informação.

Podemos dizer que o conceito de sociedade da informação procura descrever uma sociedade e uma economia que sabem usar as tecnologias disponíveis da melhor forma possível, tirando vantagens destas tecnologias em todos os aspectos relacionados ao seu cotidiano.

 
A expressão 'Sociedade da Informação' refere-se a um modo de desenvolvimento social e econômico, em que a aquisição, armazenamento, processamento, valorização, transmissão, distribuição e disseminação de informação desempenham um papel central na atividade econômica, na geração de novos conhecimentos, na criação de riqueza, na definição da qualidade de vida e satisfação das necessidades dos cidadãos e das suas práticas culturais. (LEGEY & ALBAGLI, 2000)

 

            A passagem, ou transformação, para a sociedade da informação pode se realizar a partir de três fenômenos interrelacionados: a convergência da base tecnológica, a dinâmica da indústria e o crescimento da internet (Livro verde, 2000). A sociedade da informação não é um modismo, mas uma mudança profunda nas bases sociais e econômicas. É um fenômeno de caráter global que se caracteriza pela transmissão de dados a baixo custo e pela vasta utilização de tecnologias de armazenamento que permitem à informação circular e se reproduzir numa proporção nunca antes imaginada. Sua dimensão social reside no fato de que promove a integração e reduz as distancias entre as pessoas, além de elevar seus níveis de informação (Livro verde, 2000).

 

            No prefácio do livro Multidão, Hardt e Negri nos falam da possibilidade, hoje, da concretização da democracia em escala global que estaria relacionada ao projeto da multidão, projeto que “não só expressa o desejo de um mundo de igualdade e liberdade, não apenas exige uma sociedade global democrática que seja aberta e inclusiva, como proporciona os meios para alcança-la” (Hardt e Negri, 2005). Mas que multidão é essa?

            A exatidão na circunscrição do espaço em que este conceito se situa é de primordial importância para diferenciá-lo de outros conceitos próximos e que possam vir a ser confundidos com ele. A multidão, segundo Hardt e Negri (2005) não é povo, nem massa, nem classe operária.

            O povo é uno, o que o opõe à multidão, que é múltipla. A massa não se reduz a uma unidade ou uma identidade, ela é composta de todos os tipos de espécies, mas engole todas as diferenças. A multidão é formada pela multiplicidade de orientações singulares e mantem as diferenças sociais existentes em seu interior, mas estas diferenças internas devem buscar o comum. A classe operária passou a ser, hoje, um conceito exclusivo composto de dois sentidos: ele tanto diferencia os trabalhadores dos proprietários como também diferencia a própria classe operária de outros indivíduos que precisam trabalhar. A multidão, por sua vez, é um conceito aberto e abrangente. Com relação à identidade, na multidão esta deveria ser substituída por singularidade, visto que são as singularidades que irão articular os modos de ser comuns e agrega-los.

            Os autores articulam o conceito de multidão com a possibilidade de concretização da democracia, como já foi dito, e duas características deixam clara esta contribuição, a primeira relacionada com seu aspecto econômico e a segunda com sua organização política. Com relação ao aspecto econômico, a multidão não é uma identidade nem é uniforme e suas diferenças internas devem leva-la a descobrir o comum [the common], que, segundo Negri (2001), deve ser entendido como uma categoria de produção (com impacto significativo sobre o campo ontológico). O comum não apenas serve de base para a comunicação, colaboração e cooperação, mas também é produzido por elas.

 

Esta produção do comum tende atualmente a ser central a todas as formas de produção social, por mais acentuado que seja seu caráter local, constituindo na realidade a característica básica das novas formas dominantes do trabalho hoje. (Hardt e Negri, 2005, p.14)

           

            Com relação ao aspecto político, não esquecendo que ele se une ao social, cultural e econômico, a contribuição está relacionada à sua forma de organização democrática, sendo possível observarmos sua mudança de configuração, passando de comandos centralizados a organizações em rede que deslocam a autoridade para relações colaborativas (Hardt e Negri, 2005).

            Um aspecto que devemos ressaltar ao falar da multidão usando como referencia a obra de Hardt e Negri, é que já no prefácio os autores deixam claro que para se pensar em um projeto político prático que proponha a criação de instituições democráticas e estruturas sociais, é preciso saber se realmente entendemos o significado real de democracia hoje. Como nossa proposta de trabalho não é discutir isso, achamos pertinente apenas apontar que os autores não partem de uma definição de democracia e apontam que pretendem desenvolver as bases conceituais para que esse novo projeto democrático possa ser pensado.

            Para que o conceito de multidão possa ser compreendido em sua forma mais geral e abstrata, Hardt e Negri (2005) o contrastam com o conceito de povo. Eles também contrastam multidão com turba, massas (mencionada acima) e populacho, mas iremos nos deter apenas à sua oposição ao conceito de povo.

            Como dissemos, o povo é uno e a multidão é plural e múltipla; o povo, por sua unidade, pode se constituir em poder soberano e a multidão, por sua multiplicidade, não pode; as partes que compõem o povo são indiferentes em sua unidade e se convertem em identidade ao negar suas diferenças. Assim, segundo Hardt e Negri (2005), as singularidades plurais da multidão contrastam com a unidade indiferenciada do povo.

           

De uma perspectiva socioeconômica, a multidão é o sujeito comum do trabalho, ou seja, a carne real da produção pós-moderna, e ao mesmo tempo o objeto a partir do qual o capital coletivo tenta formar o corpo de seu desenvolvimento global. O capital quer transformar a multidão numa unidade orgânica, assim como o Estado quer transformá-la num povo. É ai, através das lutas do trabalho, que a verdadeira figura biopolítica produtiva da multidão começa a surgir. (Hardt e Negri, 2005, p. 141).

 

            Os autores explicam que seu foco na multidão pelo aspecto socioeconômico se dá por conta da falta de atenção que a classe vem recebendo ultimamente e afirmam que a multidão é um conceito de classe (Hardt e Negri, 2005, p.143). Mas ressaltam que o conceito também abarca outras linhas de diferenças e hierarquias sociais, como gênero e raça, por exemplo. Assim, a produção biopolítica, ou formas contemporâneas de produção, não se relaciona apenas à produção de bens materiais em sentido econômico restrito, mas também envolve todas as facetas da vida social.


            Segundo o Dicionário de Ciências Sociais (1987), “Movimentos sociais são as tentativas coletivas de provocar mudanças, no todo ou em parte, em determinadas instituições sociais, ou de criar uma nova ordem social”. No século XIX, eram chamados de movimentos sociais aqueles que tinham como objetivo organizar a classe operária para que esta pudesse negociar benefícios e vantagens ou definir seu papel na nova ordem social. O conceito foi ampliado no século XX, abrangendo outros grupos considerados como minoritários no espaço social.

            Ainda segundo o Dicionário de CS, esses movimentos apresentam uma dupla função, sendo uma aparente, que se evidencia no recrutamento, nas inovações apresentadas e nos resultados produzidos. A função de formação de opinião pública e treinamento de liderança seria a que se desenvolve de forma menos explícita, ou oculta.

Nas ciências sociais não existe um consenso sobre o conceito, podendo até mesmo, segundo alguns autores, coexistirem paradigmas divergentes. Segundo Piccolotto (2007), os autores estabelecem concepções diferenciadas, indo desde os que trabalham com o modelo clássico e o norte americano (Alexander, 1998, apud Picolotto, 2007) até os que diferenciam os movimentos sociais em quatro grandes paradigmas, a saber, marxista, norte-americano, novos movimentos sociais e latino-americano (Gohn, 2000, apud Picolotto, 2007).

            Nossa proposta é fazer uma breve apresentação nos detendo na concepção clássica marxista e nas novas interpretações sobre os movimentos sociais, mas não consideramos como um dos objetivos deste trabalho confrontar essas diferentes linhas de pensamento e nem discutir as divergências que possam existir.

 

A concepção clássica marxista

Segundo Marx e Engels (1986), “A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”. As diferentes classes, que podem ser observadas desde a Antiguidade, sempre conviveram em constante oposição e numa guerra constante, que terminou ou pela transformação revolucionária de toda a sociedade ou pela eliminação das classes antagônicas.

            No Manifesto do Partido Comunista (1986), esses autores analisam, de forma breve, as transformações pelas quais a sociedade passa ao longo de sua existência e como a burguesia, aos poucos, vai organizando os meios necessários para sua consolidação e domínio. Mas ao mesmo tempo em que ela cria esses meios permite o surgimento de uma nova classe que irá antagonizar com ela: o proletariado. Já em seu nascimento tem início a luta do proletariado com a burguesia. Na descrição de Marx e Engels sobre a formação da classe operária e partindo da definição dada no Dicionário de Ciências Sociais, já é possível percebermos uma descrição do que seria um movimento social, mas devemos ressaltar que no texto este conceito não aparece.

           
O proletariado passa por diferentes estágios de desenvolvimento. A partir de seu nascimento começa a luta com a burguesia. No princípio a luta é assumida por trabalhadores individuais, depois pelos operários de uma mesma fábrica, a seguir pelos operários de um mesmo ramo da indústria, numa dada localidade, contra o burguês que os explora diretamente. Atacam não os condicionamentos burgueses da produção, mas os próprios meios de produção; destroem as mercadorias estrangeiras que lhes fazem concorrência, quebram as máquinas, queimam as fábricas e procuram reconquistar a posição perdida do artesão da Idade Média. (MARX; ENGELS, 1986)


            Segundo os autores, nesta fase o que podemos perceber ainda é a luta do proletariado contra os inimigos da burguesia e não os da classe operária. Mas o desenvolvimento da indústria gera o aumento do proletariado, o que leva ao seu fortalecimento, e os conflitos individuais que surgem vão assumindo cada vez mais o caráter de conflitos de classes.

 
A partir daí os trabalhadores começam a formar uniões (sindicatos) contra os burgueses; atuam em conjunto na defesa dos salários; fundam associações permanentes que os preparam para esses choques eventuais. Aqui e ali a luta se transforma em motim. (MARX; ENGELS, 1996)

 
            O pensamento de Marx contribuiu para a chamada concepção clássica dos movimentos sociais, que privilegia as interpretações históricas das revoluções. Como foi dito, em seus escritos ele não usa o conceito de movimentos sociais, mas suas reflexões sobre a organização da classe operária e suas lutas nos leva a perceber a pertinência de se apropriar de seu pensamento para compreender e definir as características deste conceito e explica-lo.

 
Todos os movimentos históricos precedentes foram movimentos minoritários, ou em proveito de minorias. O movimento proletário é o movimento consciente e independente da imensa maioria, em proveito da imensa maioria. O proletariado, a camada inferior da nossa sociedade, não pode erguer-se, pôr-se de pé, sem fazer saltar todos os estratos superpostos que constituem a sociedade oficial. (MARX; ENGELS, 1986)

 

As interpretações contemporâneas dos movimentos sociais

            Dentre as novas leituras sobre os movimentos sociais, o paradigma dos Novos Movimentos Sociais busca ir além da visão clássica marxista, em que as estruturas sociais se sobrepõem às subjetividades dos atores sociais e ignoram as influencias de sua cultura e de sua criatividade.


Assim, entende-se que a ênfase analítica nas determinações das estruturas sociais pode servir muito bem para explicar por que os movimentos surgem, mas revela-se incapaz de explicar como eles surgem e se mantém no longo prazo (Gohn, 2000, apud Picolotto, 2007).

 

            Essa visão está voltada para estabelecer uma análise dos movimentos que surgem a partir da década de 1960, principalmente na Europa. Dentro desta concepção os atores sociais passam a ter um papel importante nas ações em detrimento do papel das estruturas sociais.

            Retornando ao autor que deu a partida para a concepção deste trabalho, Alan Touraine (2006), propor uma nova definição e análise dos movimentos sociais, de suas características e interpretações, somente seria pertinente com a inserção de outros elementos nesta revisão. Ele apresenta duas possibilidades, a primeira que vê os movimentos sociais mais como uma categoria histórica, e desse modo, ligada a um tipo de sociedade que foi deixada para trás. Isso ampliaria a sua definição e sua aplicabilidade não seria mais necessária. Assim, quando ele utiliza como exemplo a sociedade industrial como um dos tipos de sociedade ligada aos movimentos sociais, hoje, na sociedade pós-industrial, sociedade da informação, não caberia mais empregarmos este conceito.

            A segunda possibilidade está na ênfase dada aos fenômenos de globalização que deslocaram os espaços e os mecanismos de conflito (Touraine, 2006). Assim, os movimentos sociais que realmente merecem ser estudados são aqueles que:


[...] colocam em questão os mecanismos de globalização que, em larga medida, não suscitam decisões semelhantes àquelas adotáveis por uma “classe dirigente”, e não aqueles que se opõem a categorias sociais no interior de um conjunto político ou territorial bem determinado. (Touraine, 2006)  

            Indo além, o autor nos adverte que “É necessário não aplicar a noção de movimentos sociais a qualquer tipo de ação coletiva, conflito ou iniciativa política”, (Touraine, 2006). Uma interpretação inicial de sua colocação nos leva a entender que o conceito, de tão usado para explicar qualquer tipo de movimento de caráter contestatório organizado pelos atores sociais, acabou ficando desgastado e perdeu seu sentido original. Sua proposta é que:

 

[..] um movimento social é a combinação de um conflito com um adversário social organizado e da referência comum dos dois adversários a um mecanismo cultural sem o qual os adversários não se enfrentariam, pois poderiam se situar em campos de batalha ou em domínios de discussão completamente separados – o que impediria, por definição, tanto o conflito e o enfrentamento quanto o compromisso ou a resolução de conflito. (Touraine, 2006)

           

            Assim, ele restringe bem o que seriam movimentos sociais, mas nos diz que não devemos levar isso de forma muito rígida, pois não necessariamente um conflito social ou uma ação coletiva precisa estar embasado por uma forte ideologia para que seja considerado como conflito social. E, por outro lado, ideologias que recorrem a conflitos significativos na sociedade não são necessariamente manifestações de movimentos sociais ou antagonismos.

            Como dissemos anteriormente, o paradigma dos Novos Movimentos Sociais privilegia a figura do ator social em detrimento das estruturas sociais, e Touraine se coloca deste mesmo modo, pois para ele não podemos falar de movimento social sem nos colocarmos no ponto de vista dos atores envolvidos no conflito e conscientes do que tem em comum. Os movimentos sociais devem ser entendidos como condutas coletivas e não como formas de evolução de um sistema, como foi posto na concepção clássica marxista.

            Um último autor que gostaríamos de abordar neste tópico é Melucci. Para ele, os movimentos [sociais] devem ser entendidos como sistemas de ação, ou seja, deve-se descobrir o sistema de relações internas e externas que constituem a ação.

Segundo Melucci (1989), na Europa da década de 1970, autores como Touraine e Habermas atribuíram novas formas de conflito e formação de novos atores às mudanças ocorridas no capitalismo pós-industrial. Ele retoma um dos pontos destacados anteriormente neste trabalho, a saber, que estas teorias baseadas na análise de sistemas dos anos de 1970 deixam dois problemas sem solução: explicam porque mas não como um sistema se estabelece e mantem sua estrutura. E que, ao contrário, os pesquisadores que usam o modelo de mobilização de recursos não percebem na ação coletiva seu significado e orientação, ou seja, explicam o como mas não o por que (Melucci, 1989). Sua opção de trabalho seria uma concentração na análise do como mas sem negligenciar o por quê.

            Melucci coloca que, hoje, os movimentos sociais frutos de conflitos sociais não são apenas políticos, porque afetam o sistema como um todo, e analisa-los por esta perspectiva apenas os limitam. No terreno do teórico aponta que o campo dos movimentos sociais é um dos mais difíceis de ser definido, e suas definições são mais empíricas do que propriamente conceitos analíticos. Para o autor, um movimento social, definido analiticamente, é:

Uma forma de ação coletiva (a) baseada na solidariedade, (b) desenvolvendo um conflito, (c) rompendo os limites do sistema em que ocorre a ação. Estas dimensões permitem que os movimentos sociais sejam separados dos outros fenômenos coletivos [...] que são, com muita frequência, empiricamente associados com movimentos e protestos. (Melucci, 1989)

            Assim, para Melucci, o que muitas vezes é chamado de movimentos sociais possui uma certa quantidade destes elementos acima e precisa passar por uma peneira para ser separado e identificado, e só então poderemos entender o significado de uma determinada ação coletiva.

 
         Ao definir multidão, Hardt e Negri (2005) a colocam como um projeto que pode empreender a democracia em escala global. Os movimentos sociais carregam em seu bojo o germe da democracia, visto que ela é um dos princípios de organização destes movimentos. Encontramos, assim, um primeiro elo de ligação entre esses dois sujeitos, a luta pela democracia.

            A multidão é múltipla, ou seja, é formada pela multiplicidade que busca o comum. Mesmo sendo aparentemente antagônica esta afirmativa, o comum aqui é entendido como aquilo que une os indivíduos em suas diferenças e multiplicidades e não a produção da homogeneidade. Um olhar por cima poderia enxergar o corpo social de hoje como um conjunto de práticas sociais e identidades pulverizadas, o que contradiz a ideia do projeto da multidão. Mas uma visão mais apurada enxergaria exatamente nesta pulverização a multiplicidade da multidão. A questão que devemos nos colocar é como essa multiplicidade encontra o comum. Como encontrar o comum dentro da multidão pela ótica dos movimentos sociais, ou, como pensar o movimento operário dentro da multidão?

            A sociedade de hoje encontra-se fragmentada e, segundo Cocco (2007), isso é uma consequência da “[...] crise do mundo industrial e a passagem a um capitalismo organizado em redes e que agrega valor a partir do conhecimento” (Cocco, 2007). Essa fragmentação pode ser percebida:


[...] no aumento das desigualdades, multiplicação dos estatutos do trabalho formal, aumento do desemprego e do trabalho informal, alternância entre períodos de atividades aberta e períodos de formação, precarização dos contratos e mais em geral da proteção social etc. (Cocco, 2007)


            Como consequência desta fragmentação podemos identificar dois movimentos singulares. O primeiro que aponta para o esfacelamento das formas de representação e da organização sindical, que pode em certo sentido refletir no declínio dos movimentos sociais de maneira geral, e, dentro deles, aqueles ligados ao movimento operário. O segundo, que oriundo do primeiro movimento, não implica nesse esfacelamento, mas ao contrário, em uma reorganização e redefinição de interesses e expectativas, com a necessidade de construção de novas formas de organização e com o uso de novas ferramentas para expressar seus princípios e propósitos circunscritos aos novos parâmetros que organizam a multidão dentro da sociedade da informação.

Os movimentos sociais, segundo Alexander (1998), podem ser vistos como mecanismos sociais que constroem traduções entre o discurso da sociedade civil e os processos institucionais específicos de tipo mais particularista. É como dizer que um movimento social passará a ter significado quando for capaz de interferir nas atribuições do Estado, por exemplo.

Portanto, o movimento operário, como uma das expressões dos movimentos sociais, dentro do cenário da sociedade da informação e no corpo social da multidão, pode ser visto como mais um dos grupos que formam a multidão e que buscam legitimar sua voz, não podendo ou devendo, assim, ser confundido com ela.

Como foi exposto anteriormente, multidão não é classe operária porque esta tanto pode diferenciar os trabalhadores dos proprietários como também diferenciar a própria classe operária de outros indivíduos que precisam trabalhar e que não são, necessariamente, trabalhadores que exerçam algum tipo de trabalho mecânico na fábrica, como também exclui de seu interior outras formas de trabalho.  No pensamento tradicional marxista, a classe operária, por ser a classe produtiva primordial, estaria sob o controle do capital e seria o único sujeito capaz de agir com eficácia contra ele. As outras classes, assim, deveriam se submeter à liderança da classe operária para empreenderem a luta contra o capital.

            A multidão é “formada por todos aqueles que trabalham sob o domínio do capital, e, assim, potencialmente como a classe daqueles que recusam o domínio do capital” (Hardt e Negri, 2005, p. 147). Essa característica da multidão incorpora em seu interior múltiplos sujeitos sociais: trabalhadores, desempregados, subempregados, trabalhadores imateriais etc. O trabalho imaterial é aquele próprio da sociedade da informação e compreende a produção de bens imateriais, de valores.

Assim, isso implica em uma revisão desta perspectiva tradicional marxista incluindo agora a classe operária como um dos agentes sociais, junto aos demais, na busca por representação de seus interesses, mas não necessariamente como a classe que lidera todas as outras. Dentro do contexto da multidão, e na nova organização estrutural da sociedade da informação, se desconstrói a figura da liderança por um único sujeito e passa-se, então, a uma liderança compartilhada. O meio para essa liderança democrática é o virtual, a organização em redes. E a multidão, segundo Hardt e Negri (2005, p. 12), é uma rede aberta e em expansão que proporciona os meios de convergência para o trabalho e a vivência em comum.

            Como perceber dentro do contexto da multidão a possibilidade de existência de outros movimentos de luta ou de resistência fundados sobre motivos que não sejam relacionados diretamente com a questão do trabalho e do capital? Como pensar a ligação destes movimentos com aqueles relacionados diretamente ao trabalho e ao capital? Quais são as outras motivações que orbitam ao redor do movimento operário além das questões relacionadas ao capital e ao trabalho e criam interfaces entre esses atores e outros movimentos sociais? Quais são as novas exigências que a sociedade da informação impõe ao movimento operário? Que novos instrumentos e ferramentas se tornam acessíveis ao movimento operário para que ele se reestruture em seu campo de ação?

            São muitas as perguntas e poucas as respostas, e não é exatamente aqui, na conclusão, que estas perguntas deveriam ser lançadas. Mas foi justamente aqui, ao final, que elas se tornaram mais evidentes. No decorrer das leituras para este trabalho inúmeros questionamentos foram feitos, muitos nem chegando a ser incluídos. Algumas destas respostas são as que procurarei responder no decorrer do desenvolvimento da minha tese, mas certas constatações já foram feitas, e algumas questões devem ser respondidas.

            Na sociedade da informação, o uso das TICs é uma realidade, seja nas organizações produtivas, administrativas, na gerência do Estado ou na vida diária.  E com relação aos movimentos sociais não é diferente:

 

Movimentos sociais fazem uso da internet na contemporaneidade de diversas formas: para divulgar causas, angariar novos adeptos, organizar protestos online e offline, coletar assinaturas para petições, dentre diversos – e criativos – outros usos. A primeira experiência geralmente referida em artigos acadêmicos de ativismo na internet foi a dos mexicanos do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em 1994. Como relatam Pimenta e Rivelo (2008), o movimento de indígenas zapatistas enviava comunicados a jornais e rádios para informar sobre o levante por direitos básicos que organizavam na região de Chiapas. O protesto reivindicava direitos locais ao mesmo tempo em que apresentava uma pauta universal, que era a denúncia das contradições do capitalismo. As declarações dos zapatistas passaram a ser replicadas na internet, em sites e em e-mails, e culminaram com a formação de uma rede de solidariedade de movimentos sociais de diversos países. (Lara, 2011)

           

Com o advento das interfaces amigáveis e a mobilidade do uso e acesso à internet, podemos identificar que os movimentos sociais passam a utilizar estas ferramentas como forma de atuação política, não só para convocar integrantes do movimento, mas também como forma de propaganda e de sedução de novos participantes.

Não devemos esquecer também das possibilidades infinitas de visibilidade que estes movimentos passam a ter. Quem tem um perfil público no Facebook, por exemplo, pode verificar como ele é usado para mobilizar os indivíduos em torno de uma causa, seja esta causa de abrangência particular (pedido de doação de sangue para um paciente específico) ou ampla (convocação para a marcha contra a corrupção, ou apoio a greve dos bombeiros no RJ). E não necessariamente quem convoca é o usuário comum, pois muitos movimentos sociais possuem páginas públicas.

Segundo Cocco (2007), existe realmente uma crise das massas operárias organizadas em partidos e sindicatos, e podemos ir além e relacionar esta crise à própria identidade dos diferentes grupos organizados na sociedade. Creio que devemos postular que as transformações que sucederam as sociedades industriais ainda se fazem como movimento e não permitem identificar modelos determinantes de estruturas mais estáveis que aglutinem os atores sociais, como até então ocorria. Apropriar-se de uma nova lógica de mudança constante talvez seja o novo desafio do movimento operário e, quem sabe, dos demais atores dos movimentos sociais, que, de certo modo, está alinhado com o que Cocco identifica como a fragmentação da sociedade, que falamos acima. Segundo ele:

 

Mas assistimos também a uma multiplicação de movimentos que foram e são capazes de articular pelo avesso essa fragmentação: desde as grandes manifestações para a democratização da globalização (o ciclo que começou em Seattle, passou por Genova e chegou até Rostock, nesse verão europeu); o movimento pela paz, que mobilizou a multidão em todas as cidades do mundo contra a guerra do Iraque; as mobilizações dos migrantes, as mais importantes tendo sido aquelas dos ilegais – muito deles latinos – nos Estados Unidos; a participação das populações indígenas nos processos de radicalização democrática dos estados andinos (Equador, Peru, Bolívia); a renovação do movimento negro no Brasil; os movimentos ligados às questões de gênero e da sexualidade (as oceânicas manifestações de pluralismo que se tornaram os “dias do orgulho Gay”) etc. Ou seja, não é verdade que para que os movimentos se constituam precisamos voltar a uma unidade. Pelo contrário, é a própria multiplicidade dos sujeitos que proporciona essa variedade incontrolável – desde o ponto de vista do poder – dos movimentos. (Cocco, 2007)

            Assim, acreditamos não ser possível imaginar, hoje, que exista algum movimento social não relacionado ao trabalho e ao capital, mas devemos perceber que estamos vivendo em uma sociedade em que estes elementos não estão mais restritos à fábrica e aos espaços de produção e não podem mais ser pensados isoladamente como elementos condicionantes. A lógica da organização da produção mudou e a lógica de construção da representação e de interpretação da realidade também se alterou.


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